Comparação entre os preços dos toca-discos no Brasil e nos EUA: um papo de arrepiar os cabelos

A Conversa de Vinil desta semana é uma coisa muito séria para quem é aficionado pelos vinis: vamos falar de uma coisa muito importante que é a questão dos preços dos toca-discos no Brasil comparando com os exercidos no exterior, particularmente nos EUA, bem como, o detalhamento dos impostos para que possamos ver a realidade do mercado de toca-discos brasileiro, seu valor frente grandes magazines americanos e as consequências que isso provoca na cadeia produtiva do vinil.

No dia 20/08/2016 nós publicamos o artigo 10 toca-discos para você comprar no Brasil e agora, à princípio, tínhamos proposto fazer uma análise sobre os preços de seis dos toca-discos do referido artigo na Amazon ou na BH Photo Video – uma loja muito conhecida pelos brasileiros e, caso o tocador não existisse na primeira – comparando-os com os preços exercidos por aqui. Mas, nem tudo ocorreu como esperávamos e fomos direcionados pelas prospecções que estávamos fazendo a retirar dois toca-discos que estavam previstos para análise, o Diamon e o Raveo Aria, pois, não encontramos referências para venda nas lojas internacionais e muito pouco descobrimos sobre estes tocadores de vinil, nem o fabricante nós achamos na Internet, inclusive, procuramos referências em lojas brasileiras.

Nossa pretensão, portanto, era apresentar as comparações de 3 toca-discos mais considerados pelos audiófilos – Pro-Ject Debut Carbon DC; Audio-Technica At-LP120 e Stanton T55 USB – e três que chamaríamos de popular – ION Pure LP; Diamond e Raveo Aria Bluetooth – porém, fomos, ocasionados pelos resultados da nossa pesquisa a retirar da lista o Diamond e o Raveo Aria.

Assim, partimos para a realidade de 04 dos 10 apresentados no artigo já mencionado e excluímos o Marantz TT 42P; os Pro-Ject Essential IIAudio Systems e o Elemental e, também, o Denon Dp200 Usb, pois acreditamos que os três analisados que “intitulamos” em “os mais considerados pelos audiófilos” representariam os que foram deixados de lado na pesquisa pelas faixas de preço e qualidades, de certa forma, semelhantes.

Nossas condições para análise:

  • Dólar do dia 14/10/2016 cotado pelo site tributado.net a 3,18 Reais
  • Tipo de envio (frete) “courrier”
  • Taxa do “courrier” cobrada, normalmente, por este tipo de envio por 100 Dólares pela Amazon e na BH
  • Unidade Federativa Rio de Janeiro – RJ (pegamos o RJ como exemplo por ter um dos maiores valores de ICMS do país – 19% – porém, não deixamos de lado a totalidade dos estados e tratamos sobre as diferenças de ICMS na parte da conclusão)
  • Imposto de Importação 60%
  • ICMS – 19%
  • IOF – 6,38%
  • Os preços brasileiros são aqueles cotados na pesquisa realizada no texto de 20/08 que usou como critério de escolha a existência do toca-discos em pelo menos 3 lojas diferentes (excluindo o Mercado Livre e sites congêneres)

Vamos lá?

Pro-Ject Debut Carbon DC

debut carbon dc

O preço brasileiro varia de R$ 4.299,00 a R$ 3599,00

  • Preço Amazon: 399,00 Dólares

Comprando na Amazon (em Reais)

  • Valor do produto sem impostos: 1268.82
  • Custo do frete: 318.00
  • Total da compra: 1586.82

Tributos

  • Imposto de importação: 952.09
  • ICMS: 595.55
  • IOF: 101.24
  • Total de Tributos: 1648.88

Valor final com impostos: 3235.70

Audio-Technica At-LP120

audio_technica_at-lp120

O preço brasileiro varia de R$ 5999,00 a R$ R$ 2999,00

  • Preço Amazon: 299,00 Dólares

Comprando na Amazon (em Reais)

  • Valor do produto sem impostos: 950.82
  • Custo do frete: 318.00
  • Total da compra: 1268.82

Tributos

  • Imposto de importação: 761.29
  • ICMS: 476.20
  • IOF: 80.95
  • Total de Tributos: 1318.44

Valor final com impostos: 2587.26

Stanton T55 USB

staton t55

O preço brasileiro varia de R$ 1463,02 a R$ R$ 1721,20

  • Preço Amazon: 199,00 Dólares

Comprando na Amazon (em Reais)

  • Valor do produto sem impostos: 632.82
  • Custo do frete: 318.00
  • Total da compra: 950.82

Tributos

  • Imposto de importação: 570.49
  • ICMS: 356.85
  • IOF: 60.66
  • Total de Tributos: 988.01

Valor final com impostos: 1938.83

ION Pure LP

ion pure lp

O preço brasileiro varia de R$ 717,53 a R$ R$ 746,9

Comprando na BH (em Reais)

  • Valor do produto sem impostos: 222.44
  • Custo do frete: 318.00
  • Total da compra: 540.44

Tributos

  • Imposto de importação: 324.26
  • ICMS: 202.83
  • IOF: 34.48
  • Total de Tributos: 561.58

Valor final com impostos: 1102.02

 

Conclusões:

Pode ser óbvia a conclusão: o que eleva o valor dos toca-discos no Brasil são os impostos que recaem sobre eles. Porém, isso não diz tudo sobre as consequências destes altos preços. Vejamos abaixo:

Esta situação faz com que o americanos possam adquirir um toca-discos por preços muito menores que no nosso país e isto, com toda certeza, auxilia muito no crescimento dos discos de vinil nas Terras do Tio Sam. Por exemplo: se uma família com uma renda mais apertada gastar 69,95 Dólares num tocador de vinil, tem um impacto no orçamento efetivamente menor que o mesmo tipo de família brasileira ao desembolsar entre R$ 717,53 a R$ R$ 746,9 – isto é quase o mesmo valor de um salário mínimo! Agora, imaginemos o fã do vinil podendo comprar um excelente tocador como o Pro-Ject Debu Carbon por R$1268.82? Ah! Isso seria o céu – deve estar pensando o(a) leitor(a)! No céu estão os americanos do norte! Nós pagamos por este mesmo aparelho o exorbitante valor de R$ 4.299,00 a R$ 3599,00!

A soma dos tributos (Imposto de Importação, ICMS e IOF) são superiores a 100% do valor do produto! Ou seja, quando importamos um tocador de vinil estamos pagando mais que o dobro dele em impostos! E quando compramos em lojas brasileiras – somando o acréscimo do lucro que é justíssimo, já que as lojas precisam dele para sobreviverem – provocam preços praticamente proibitivos para a maioria dos brasileiros em ambos os casos.

Sobre a importação dos toca-discos pelas lojas brasileiras para a revenda por aqui, a questão não é muito diferente do que uma compra Pessoa Física no que tange aos valores dos impostos mencionados acima. A vantagem das lojas perante a situação de um comprador comum está ligada ao preço mais baixo que ela consegue junto aos fornecedores e o valor do frete. Com certeza uma loja compra os aparelhos com preços na fonte fornecedora menores.

O que essa situação faz?

Primeiro, ela eminentemente provoca a procura de toca-discos com preços mais próximos da capacidade de compra do brasileiro. Portanto, os tocadores de pior qualidade se tornam os preferidos para compra e isso, necessariamente, recai numa experiência por parte de quem vai ouvir o vinil nestes aparelhos muito ruim, provocando desconfortos que podem até ocasionar na desistência do uso desta mídia.

Segundo, que as lojas precisam, para venderem seus tocadores, diminuírem drasticamente seus lucros e isso faz com que elas optem, naturalmente, em oferecer um portfólio menor, propiciando a nós reles mortais das terras que Cabral descobriu, poucas opções de marcas para compras.

Terceiro, para as lojas sobreviverem aos enormes impostos ou, até mesmo, conseguirem lucrar mais com a volta do vinil, muitas estão comprando players de marcas desconhecidas no mercado internacional ou de fabricantes que vendem os chamados “genéricos” e “batizam” estes tocadores com uma chancela própria, revendendo-os – isto dificulta o comprador destes produtos a terem conhecimento da forma de fabricação e da qualidade de seus componentes eletroeletrônicos, da mesma forma que confunde a capacidade de poderem avaliar e comparar com outros semelhantes e a encontrarem acessórios, assistência técnica e etc fora das lojas que fizeram suas aquisições.

O quarto ponto recai sobre o valor do ICMS. Apesar da pesquisa ter sido feita sobre o cálculo do estado do Rio de Janeiro que é de 19%, a maioria dos estados brasileiros cobram 17%. Mas, isso no final das contas não cria muita diferença para os compradores fluminenses e os do restante do país, exceto que terão que desembolsar uma pequena grana a mais. Só a título de curiosidade faremos as contas do Audio-Technica At-LP120 com a alíquota de 17% que terá o preço final em R$ 2526.87 diferente dos R$ 2587.26 – uma diferença de R$ 60,39 (que já daria para comprar uns bolachões  usados dependendo do preço…)

O quinto ponto é uma suposição, mas, é possível que existam lojas que retirem valores maiores dos lucros dos toca-discos e repassem no preço final dos discos de vinil, encarecendo-os, para chegarem no “fim das contas” com os dividendos planejados, afinal, discos de vinil e seus tocadores fazem parte de uma relação entre produtos que é indissociável.

Sexto e último, quando que as fábricas de aparelhos eletrônicos brasileiros vão apostar em fabricar toca-discos por aqui? Isso, efetivamente diminuiria drasticamente o preço do tocador, iria aumentar as vendas dos discos de vinil e traria uma alegria imensa para os fãs. Temos certeza que o Brasil é capaz de fabricar excelentes toca-discos!

Então, essa história para nós que gostamos de um vinil “véi di guerra” arrepia ou não nossos cabelos? É uma história desagradável, né? E ela precisa ter uma saída, do contrário sempre teremos dificuldades para termos toca-discos melhores e sequer o mercado de usados tem ajudado mais, pois, até ele está começando a saturar e encarecer. Quem tem um bom toca-discos em casa não quer vendê-lo e se for o caso de vender, com certeza, não será mais baratinho como era um tempo atrás.

Esperemos que um dia tudo isso mude, afinal, a esperança é a última que morre…

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