A noite de um dia de cão

Instigado a escrever sobre discos de vinil, lembrei de um episódio ocorrido há 12 anos. Depois de um dia duro, trabalhando feito um cachorro (alguém já viu cachorro trabalhando??),  cheguei em casa e me deparei com um presente em cima da mesa: um cd com a discografia completa dos Beatles em mp3!! Nunca fui um audiófilo fundamentalista, mas daquela vez resolvi fazer o teste comparativo. Peguei logo um Hard Day’s Night mono, selo Odeon, comprado num sebo, com a capa sanduíche arranhada, provavelmente por garras felinas. Na época, deixei minhas impressões num blog:

“Quem já ouviu Beatles nos originais de vinil Hi-Fi (o ápice da gravação analógica), não consegue conter o bocejo na segunda audição de qualquer um desses Frankensteins, compactados ou não. Frankenstein porque a digitalização é uma reconstituição do som macerado quando da transmutação para códigos binários, e bocejo porque o som digital dá fadiga: o cérebro tem que recompor os fragmentos que sobraram nessa operação, idealizar que aquele som desfigurado é algo mais, é quase como ao vivo, como prometiam os marqueteiros digitais. Mp3 então, como assim, dispensar informações irrelevantes para compactar o som???

O processo de audição do som digital se assemelha a fingir um orgasmo; fingimos tanto, e tão perfeitamente (diria o poeta em Pessoa), que passamos a ter aquele simulacro de gozo como referência..”

Claro que revi bastante a minha opinião. É que, na época, eu andava revoltado por ter caído no conto dos marqueteiros digitais, e me desfeito de boa parte de minha coleção de vinis, em troca do paraíso sonoro que o cd me prometia. Sim, o analógico tem toda essa magia de ondas invisíveis sendo transportadas e convertidas num processo em que a interferência humana sobre as forças da natureza é só a de condução. Mas entre um Frankenstein e um fake-nstein vai uma grande distância. O som digital não é uma mentira, é um som reprocessado, sim, mas também tem lá sua magia e charme, assim como o velho monstro. Ao transmutar energia em informação, o homem passa do monitoramento passivo para a inteligência viva, ativa e decisiva. O cd é o primeiro exemplo concreto das possibilidades da engenharia genética.

cd-mp3-vinil

Ok, antes que a maionese se espalhe pela tela, voltemos à vaca fria. Desde o começo, o som digital se norteia pelos paradigmas de “equilíbrio” e “limpeza”. Nas ocasionais enquetes, onde geralmente o cd vence, esse tal “equilíbrio” das freqüências é sempre citado. Os fã-clubes virtuais dos Beatles, por exemplo, consideram campeões os vinis prensados hoje com as matrizes remasterizadas digitalmente. Só que, pelo menos desde o rock e o free-jazz dos anos 60, para não falar dos experimentalismos da música erudita, esse conceito já foi mais que relativizado. Para ficar só no rock: das estridências de Little Richard, passando pela santa desafinação das primeiras gravações dos Beatles, pelo som “sujo” dos Stones, Hendrix, e culminando no punk, a idéia foi muito mais “desequilibrar”, e estou falando só de sonoridade, sem entrar na seara das letras, atitude, etc.. E para não espichar a prosa: comparem, de preferência em vinil, o Exile on Main Street, de 1974, com o Tatoo You, de 1983, gravado em pleno florescer digital. É um discaço, sim, mas a “sujeira” foi suavizada e tornada palatável ao gosto médio. Por outro lado, se você pega The Nightfly, de Donald Fagen, 1982, é um disco DDD, gravado, mixado e masterizado digitalmente, e uma referência para o citado “equilíbrio”. Mas ouçam: esse “equilíbrio” não soa muito mais vivo no vinil?

A verdade é que a quantidade de informação musical disponível hoje, graças à tecnologia, é fascinante. Fascina, assombra, e se torna monstruosa quando se detecta a absoluta ausência de critérios para a sua assimilação, submetendo as escolhas às oscilações do mercado. Adorno, filósofo alemão, falava no longínquo  1938 sobre a regressão da qualidade de audição que a humanidade entre-guerras experienciava  diante dos produtos da então nascente indústria cultural, centrando fogo sobre a proliferação da música de salão e a música popular americana (big bands, Frank Sinatra).

Acenava-se, da mesma forma, com democratização do acesso à cultura, só que, na verdade, a indústria é que passava a determinar seu próprio consumo. Hoje, o acesso é universal tanto para a música como para o sexo, negócios e gatunagens virtuais. Parece que cada vez mais imergimos nesse “mundo paralelo”, e a febre de Pokémon é só um exemplo. Mas não terá sido assim desde Platão que, com seu mito da caverna, instigou o homem a ir além das confortáveis sombras às quais sempre queremos retornar?

Em ouvidos besuntados de laticínios pasteurizados, entram Pokémon e Stockhausen parecendo a mesma coisa. Os padrões tecnológicos que passam a modular nossos sentidos, nivelando por baixo (ou por alto?), decalcando referências e parâmetros vitais, reportam-nos às memórias implantadas nos replicantes de Blade Runner. Eu, um replicante pelo avesso, tenho que deletar minha memória Hi-Fi toda vez que me deparo com um desses equipamentos “high-end”, com 500 saídas de áudio e (d)efeitos esp(a)eciais. Do Hi-Fi para o wi-fi, a passagem é penosa.

Ocorre que, para nós mortais e assalariados, só resta tempo para ouvir música quando estamos em frente ao micro, à noite, levando trabalho pra casa, navegando em redes sociais, vendo fotos de peladonas, etc.. Assim, o ato primordial de ouvir música está em extinção; são poucos os que ainda param, ou dançam, ou chamam a mina para “curtir um som”. Não se trata de saudosismo, mas CD, MP3 e similares não foram concebidos para ouvir, e sim para acompanhar,  embalar. Se você para pra ouvir, começa a prestar atenção, aí a coisa complica, mesmo porque o mercado da música parece direcionado para esse muzak paliativo.

Voltando ao quarteto de Liverpool, do qual fiz uma paráfrase no título, não digo que John e George estão rodopiando no túmulo por conta dessas gaiatices; George, na verdade, queria mais é que lhe dessem crédito por seus breves solos na primeira fase do grupo, como em “And I Love Her”. Mas a clareza da palheta tangendo as cordas do violão eletrificado, só realimentando a memória Hi-Fi, e aí só o vinil, eventualmente com o auxílio luxuoso da remasterização digital,  para garantir a luz do evento. Talvez seja aí a reversão da regressão auditiva da humanidade, como queria Adorno. Ou então, que continuemos fingindo orgasmos.

O autor:

ed

Sou Ed Calahani, 56 anos, moro em Bauru/SP, trabalho na prefeitura local, formado em Psicologia. Nasci em Avaré, também interior de SP, e morei por muitos anos na capital, onde adquiri o gosto por boa música, boa comida, boa bebida e boa companhia.

__________

Quer saber mais sobre o “ressurgimento” do Vinil? Clique aqui!
Quer saber sobre a qualidade sonora do Vinil, do CD, do streaming e do MP3? Clique aqui!
Sobre os toca discos? Clique aqui!
Cuidados com seus discos? Clique aqui!
Como e onde comprar? Clique aqui!
Toda semana um novo post realizado por nós, a equipe do UV, no menu “Conversa de Vinil

Quer interagir? Utilize a seção contato, clicando AQUI!

Website Malware Scan