O brasileiro fora da alegria mundial do vinil: um panorama da situação de hoje

Infelizmente, o título desta Conversa de Vinil é a mais pura realidade. Para a maioria dos brasileiros – que gostam ou redescobriram o vinil – participarem deste momento mágico que anda o mercado internacional do bolachão é uma raridade e para pouquíssimos – apenas para os endinheirados – e para completar o frete do vinil vendido pela Internet sofreu um baque tremendo com o fim do e-Sedex (que continua funcionando por força de limiar – que explicaremos mais adiante).

Adiantamos que é um artigo longo e minucioso e convidamos para fazerem a leitura. Quem sabe  possamos pensar juntos em saídas que nos permitam embarcarmos neste alegre bonde do vinil mundial, antes que seja tarde demais?

Praticamente no mundo todo as vendas de vinil crescem e alcançam cada vez mais novos adeptos. O vinil faz sucesso e já é responsável por mais de 5% do total de vendas físicas de álbuns. No Reino Unido, no final de 2016, chegou a  ultrapassar o valor de vendas do obtido em downloads de discos e é o 11º ano consecutivo de alta nos EUA e o 9º nas Terras dos Beatles. O vinil, mundialmente e na prática, desde 2000 opera em alta.

Recentemente saiu no Financial Times uma pesquisa – elaborada pela agência de análises Deloitte – que mostra a potencia do mercado de vinil para o ano de 2017. Os números são estratosféricos: deverão ser vendidos 40 milhões de discos e a cadeia da indústria do vinil (vendas de discos, toca-discos e acessórios) chegará pela primeira vez (após os anos 80) a 1 bilhão de dólares. Novas fábricas se abrem, outras se remodelam e ampliam. Sem contar o que foi mostrado na CES 2017 (maior feira de eletrônicos do mundo) sobre os novos modelos de toca-discos a serem vendidos a partir deste ano, como também, fones; cápsulas e agulhas; preamps e etc.

“O vinil deve representar quase um quinto do mercado de música física e contribuir 7% para os US $ 15 bilhões que o mercado global de música espera.”

Venda de vinil nos EUA

Antes de qualquer coisa precisamos entender que o vinil não pode ser visto como um arranjo econômico regional e muito menos local. Ele é um produto que precisa ser visto de forma global pelas suas peculiaridades que são:

A – O número baixíssimo de fábricas existentes no mundo (não chegam a 60) e a probabilidade deste número aumentar em demasia é muito pequeno, visto que ainda não temos produção de novas máquinas para a fabricação de vinis. Podemos dizer que 100% do parque industrial do vinil do mundo em funcionamento é herança de maquinário dos anos dourados do vinil (1995 para baixo). Obviamente que há muita pesquisa e investimentos para a melhoria deste cenário, mas hoje início de 2017, podermos dizer que pode haver expansão do parque em curto prazo é impossível – excetuando as plantas que já foram anunciadas para começarem a funcionar neste ano (se quiser saber mais sobre algumas pesquisas e novas tecnologias para o vinil, bem como, novas fábricas que entrarão em funcionamento ou o incremento daquelas já existentes, clique aqui)

B – No Brasil só temos duas fábricas, Polysom e Vinil Brasil, estando a segunda ainda em fase de implementação e inoperante no momento. A capacidade da primeira é de 150 mil vinis/ano e a segunda promete mais (algo em torno de 300 mil vinis por ano), porém só chegará neste ápice de mais de 300 mil numa fase posterior ao seu início de atividades. Estes números mostram que em hipótese alguma as duas fábricas conseguirão dar conta da demanda por vinis existente no Brasil de agora. Para ilustrar esta situação basta entendermos a fila de pedidos da Polysom que demora em média de 3 a 4 meses para entregar uma encomenda.

C – A demanda por vinis é mundial – nos EUA em 2016 foram vendidos 6,2 milhões de vinis. Enquanto as vendas de CDs caem vertiginosamente, as de vinil crescem. Os artista, as gravadoras e selos redescobriram o vinil como aporte financeiro para suas atividades, pois, a capacidade de lucro do disquinho preto de plástico ultrapassa a do CD. Inclusive grandes gravadoras começam a deixar projetos embasados em Compact Disc de lado, como, por exemplo, a recente notícia do abandono da Universal do lançamento da caixa de CDs com todos os álbuns da cantora Alcione. O projeto do CD foi deixado de lado, mas o relançamento ocorre nas plataformas de streaming de música como o Spotify e Deezer.

D – Estas mesmas grandes gravadoras de hoje não são mais as protagonistas da indústria fonográfica. Elas não são as donas das fabricas de vinil e nem das plataformas de streaming (que se tornou o modelo mais popular para a “venda” de música). As grandes gravadoras converteram-se muito mais numa espécie de agentes dos artistas do que as responsáveis pela cadeia musical que era por elas totalmente abraçada – da produção de discos ao agenciamento dos artistas. O mercado mudou e seus agentes também. Não há mais gravadora que obtenha sucesso econômico estrondoso somente com a venda de CDs de seus artistas. Quem fabrica os vinis e administra os sites e apps de streaming de música são empresas independes das grandes, portanto, o cenário do mercado de música é radicalmente outro, aparecendo, inclusive novos partícipes, como os “donos dos modelos Spotfys” da vida.

Com toda esta explanação o que queremos mostrar é que não existe uma forma de conseguirmos uma fabricação nacional dos principais títulos que saem em vinil pelo mundo, muito menos de todos os artistas brasileiros que desejam fazer seus vinis. Não existe a mínima hipótese de pensarmos que no Brasil poderemos fabricar aqui tudo que é lançado em matéria de música como fora outrora com os vinis (antes dos anos 90) e com os CDs. Nosso parque industrial é ínfimo com uma capacidade irrisória para alcançar a demanda. Mesmo que na melhor das hipóteses consigamos fabricar a soma das promessas das duas fábricas (450 mil vinis/ano), jamais chegaremos ao potencial do mercado brasileiro que pode perfeitamente ultrapassar 1 milhão de bolachões. No curto, médio prazo, pensarmos em aumentar o número de fábricas é praticamente impossível. Talvez uma terceira fábrica possa aparecer, mas 4 ou 5 é uma suposição quase próxima daquela que diz que Papai Noel existe.

Outra questão é que a mudança dos agentes protagonistas da indústria da música fez com que aparecessem vários selos e gravadoras menores lançando artistas excelentes e com enorme demanda para venda, assim como, existem artistas verdadeiros campeões de vendas de discos e que lotam shows que não estão mais nos elencos das maiores. Foi-se o tempo que 5 ou 6 grandes gravadoras mandavam em tudo no mundo em matéria de industriária fonográfica. Este mercado hoje é muito mais plural, independente e diversificado e praticamente todos os artistas dos mais conhecidos aos menos querem fazer seus vinis gerando disputadas “filas” nas poucas fábricas para criarem seus bolachões.

Com poucas fábricas e perspectivas de aumento substancial da produção de vinil quase nula, quando pensamos em discos de vinil devemos pensar globalmente. O que se fabrica num país pode e deve ser vendido em outro, já que a demanda é plenamente capaz de ser distribuída pelas fábricas existentes, mas é muito pouco provável que um país consiga ser autossuficiente em matéria de produção de vinil para seu mercado interno nos dias de hoje. Os artistas e gravadoras precisam ter a liberdade para procurarem fábricas que tenham preço e prazo para entrega perto de suas necessidade e não podem ficar reféns do que nosso país lhes oferece, pois, isso atrapalha profundamente seus planos e projetos da carreira e suas economias. Isso é uma prática que existe em outros países mas, no Brasil é inexistente, sem contar que o que se fabrica lá fora é anunciado aqui, mas apenas uma porcentagem escassa é ofertada nas nossas Terras Tupiniquins. Sabemos tudo que é mais relevante sobre lançamentos de vinis, mas poucas pessoas têm acesso, só os endinheirados mesmo! E os artistas perdem bastante com a nossa triste realidade.

Um detalhe importantíssimo são as reedições de álbuns mais antigos. Nem comentamos sobre eles, mas saibam que esta é uma das maiores demandas no mercado do vinil e compete tanto quanto o disco novo na preferencia do consumidor, o que nos faz perceber que este mundo do vinil é feito de novidades, mas também o antigo tem seu lugar de destaque!

Contexto brasileiro:

Excetuando o empenho de certas lojas para obterem os vinis oferecidos no exterior procurando vendê-los a preços menores que a importação de pessoa física (mesmo assim não alcançam a quantidade de títulos ofertados e os preços, por mais que se esforcem, é muito maior que os exercidos no exterior) e a aplaudível (e corajosa) atitude da Polysom e da Vinil Brasil em fabricarem discos aqui, o resto é totalmente em desacordo com o que ocorre no mundo. E se o país quiser entrar nesta onda maravilhosa do vinil dos últimos tempos, só temos duas saída: fim dos impostos e  uma conversa com a indústria eletrônica.

O fim do imposto de Importação para a cadeia do vinil!

Não existe desculpa nenhuma para o governo manter os impostos altos sobre os discos de vinil, visto que não temos indústria com a capacidade de fabricar aqui o que é feito no estrangeiro e, para o todo da economia brasileira, os impostos obtidos com o vinil não ajudam praticamente em nada a nação, por serem ínfimos no tocante ao total de importações.

Para terem uma ideia do que representa a questão acima, basta observarem este exemplo:

Um vinil que custe no estrangeiro 20 dólares, sairia aqui a R$64,00 (conversão de 01 dólar valendo 3,21 Reais). Este mesmo disco de 20 Dólares – na importação direta – a pessoa física pagaria R$127,46. Sendo R$38,40 de Imposto de Importação; R$20,97 de ICMS de estados que cobram a alíquota de 18% e R$4,08 de IOF – total de impostos: R$63,46!

Ou seja, nós praticamente pagamos 100% a mais do preço do disco só em impostos! E isso sem contar o frete que elevaria mais ainda o preço!

No caso do vinil fabricado no Brasil já houveram alguns esforços que demandaram algumas ajudas, tais como a promulgação da PEC da Música de 2013 que resultou na Emenda Constitucional 75. Porém, o vinil ainda não usufrui de todos os benefícios visto que o IPI Zero para Prensagem (Imposto sobre Produto Industrializado) só atinge fábricas que estejam na Zona Franca de Manaus e nossas duas fábricas encontram-se nos estados do Rio de Janeiro (Polysom) e São Paulo (Vinil Brasil). Assim, se com a PEC da Música e o IPI Zero ajudaram o CD e o DVD a caírem de preço entre 19% e 25%, para o vinil este número não foi alcançado.

A tal da “conversa” com a indústria eletrônica brasileira deveria existir com as entidades que representam a cadeia do vinil. A ABPD (Associação Brasileira dos Produtores de Disco que agora se chama Pró-Música Brasil: Produtores Fonográficos Associados), a ABMI (Associação Brasileira da Música Independente), representantes de músicos, lojistas e consumidores poderiam criar um fórum para discutirem a possibilidade da indústria eletrônica brasileira voltar a fabricar toca-discos. O caso das agulhas e cápsulas também deveriam entrar nesta conversa, principalmente com os representantes das empresas que as fabricam e têm escritórios no país (como a Shure, por exemplo).

Convencer a indústria eletrônica brasileira de que ela tem mercado para vender toca-discos e que podem fabricá-los nas terras Tupiniquins é situação primordial para a entrada de vez no momento mundial do vinil ou, caso isso não ocorra, também procurar saídas via diminuição de impostos para a importação destes equipamentos.

Nós estamos muito longe da realidade americana do norte e europeia no tocante a oferta de toca-discos e acessórios – seja em qualidade, seja em preço ou em diversidade de modelos. O que se compra lá fora com 200 dólares (que seria mais ou menos R$700,00) não chega aos pés em matéria de qualidade e benefícios do que se compra aqui com estes mesmos R$700,00! Chega a ser absurda a comparação! (Se você tiver curiosidade para saber mais sobre isso leia nosso artigo “Comparação entre os preços dos toca-discos no Brasil e nos EUA: um papo de arrepiar os cabelos“.

Por fim, a “bomba” que nos caiu nestes últimos dias que foi o cancelamento do e-Sedex por parte do governo federal, apesar de continuar funcionando por força de uma liminar da justiça, mas até o Mercado Livre já abandonou este modelo para seu Mercado Envio.

O e-Sedex era (ainda é, mas está só funcionando porque a justiça o manteve) um serviço dos Correios que fazia o frete de produtos vendidos na Internet sair mais barato e com o tempo muito próximo ou igual ao Sedex. Agora isso não existe mais e para quem compra vinil só resta o PAC (que pode demorar mais de 20 dias para chegar) ou o Sedex que é caríssimo. E quem curte vinil sabe que quanto mais tempo o disco viaja, fica mais sujeito a chegar com estragos no destinatário. Ou seja, para salvaguardarmos nosso amado disquinho, muito provavelmente, ainda teremos que pagar mais ainda pelo frete quando comprado pela Internet (que é a maioria das compras brasileiras de vinil).

Realmente, não existe nenhuma facilidade via políticas públicas para o vinil no Brasil! Isso é fato! Mas, também é fato que não podemos esperar governos agirem. Quem precisa agir somos nós mesmos! E a primeira saída é a conscientização da nossa realidade e colocarmos a “boca no trombone” via redes sociais, mesas de bar, salas de aula, universidades e etc para mostrarmos a realidade do vinil, quem sabe algum graúdo da política não nos ouve?

Sabemos que os esforços dos lojistas e das fábricas brasileiras são fenomenais. É louvável vermos algumas lojas que diminuem drasticamente seus lucros para venderem vinis importados que seriam proibitivos comprarmos via importações diretas, bem como, as atitudes proativas para diminuírem preços de vinis fabricados aqui. Mas, também sabemos que existem gravadoras e lojas que ultrapassam o limite do aceitável em matéria de preço final ao consumidor e literalmente metem a mão!

Então, a questão de não estarmos neste mundo maravilhoso do vinil dos EUA, Europa, Japão, Austrália, Canadá e etc é muito culpa da falta de diálogo sobre este universo do vinil com os governos (estaduais e federal). Mas, será que estes governos querem nos ouvir? Portanto, a afirmativa pode ser outra:  a questão de não estarmos neste mundo maravilhoso do vinil dos países citados pode recair praticamente na falta de diálogo dos governos com os setores que englobam o mercado do vinil, como também, a falta de perspectivas de futuro melhor da nossa economia para que a indústria eletrônica, por exemplo, possa investir na fabricação de toca-discos por aqui. Contudo, a questão do fim dos impostos não está ligada a novos investimentos do mercado, mas sim, à divulgação e promoção de uma cultura musical que existe no Brasil praticamente desde que as mídias que arquivam e tocam músicas foram inventadas.

Se quisermos usufruir de tudo que o vinil vem realizando no resto do mundo, só nos resta agirmos. E como podemos agir? Que tal começarmos e enviar e-mails para as nossas indústria de eletrônicos como Panasonic (dona da Technics), Sony e outras perguntando se vão fabricar ou importar toca-discos para cá com preços mais baratos? Ou, quem sabe, alguém conhece algum político e mostra para ele a realidade do vinil como um mercado que gera benefícios para lojistas, músicos/artistas (e suas famílias) e que existe uma enormidade de pessoas que adquirem estes discos e estão aquém do que rola lá fora e este político resolver atuar no Congresso ou nos Ministérios da Cultura, Indústria e Comércio e similares para o benefício desta cultura do vinil?

Não! Não podemos perder este bonde da alegria do vinil no mundo! Essa é a maior certeza que o amante do vinil tem hoje em mente!

 

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