A cena vinil brasileira. Do lojista ao produtor de discos: uma entrevista com Fred Cesquim da Record Collector

A Conversa de Vinil desta semana é uma entrevista muito bacana com Fred Cesquim, proprietário da loja de vinil Record Collector (no Facebook, clique aqui) e do selo que carrega o mesmo nome. Só para lembrar os leitores da importância de Fred para o cenário do vinil é que seu selo Record Collector é um dos responsáveis pela volta dos discos (em vinil) de Raul Seixas para o mercado atual, bem como, lançamentos de álbuns inéditos do “Pai do Rock brasileiro” e outros; foi um dos pioneiros na venda de vinis novos pela internet , sem contar que é um grande aeromodelista (mas, isso para a entrevista não vem ao caso – sory, my friend Fred! rssss)

O papo foi dividido em duas partes, sendo a primeira com o “Fred lojista” e a segunda com o “proprietário do selo”.

Sem mais delongas, aproveitem e vamos a ele:

1 – Fred, como você vê, de forma geral, o mercado de vinil no país?

É um mercado predominantemente amador e com muito potencial de crescimento de forma profissional, já que lojistas profissionais sofrem com desconfiança dos compradores que muitas vezes são ludibriados por vendedores anti éticos ou sem compromisso com qualidade e atendimento. Há também muita oferta de discos (novos e usados) com valores fora do mercado, a dificuldade enorme de se importar material e a baixíssima produção local de vinil (novos ou reedições) considerando o tamanho do mercado e a riqueza musical do Brasil. Também temos um trabalho de “desmistificação” para os novos compradores, que acham vinil “caro”, acreditando que deva custar no máximo o mesmo valor de um CD, que só compram em lojas físicas pois temem ser enganados, e até mesmo o “mito” maior que só pode ser novo se o álbum for “lacrado”. Há que se informar melhor o mercado das possibilidades, real valor e problemas e vantagens intrínsecas do produto “vinil”.

2 – No seu ponto de vista e com essa experiência de quase 10 anos como lojista, quais foram os momentos marcantes para o vinil no Brasil neste tempo?

O boom do comercio virtual, onde fomos pioneiros, que levou o LP a qualquer endereço no Brasil, mesmo em localidades tradicionalmente carentes de lojas de vinil e a reabertura da Polysom com lançamentos quase que mensais de reedições e discos novos. Estes dois momentos foram os picos de desenvolvimento e disseminação da cultura do vinil nesta ultima década.

3 – O que esperar do vinil no Brasil: você acredita que este mercado pode ser expandido? Se acredita, quais os fatores que emperram a expansão e quais os que auxiliam no processo de crescimento?

Sim, com certeza tende a expandir, já que semanalmente surgem novas lojas online, físicas e outros lojistas incluem o LP em sua gama de produtos ofertados.

O aumento da produção da Polysom e a possibilidade de abertura da Vinil Brasil trazem maior quantidade de títulos disponíveis e facilitam que novos colecionadores comecem a ouvir musica neste formato.

O que certamente atravanca o aumento do mercado é o alto custo de importação (frete + impostos + dólar), pequena oferta de títulos prensados localmente e a inexistência de fabricação local de toca-discos. Neste particular, o mercado esta inundado de aparelhos chineses, não tão baratos e de baixa qualidade, que acaba por desestimular os novos audiófilos.

4 – Muita gente alega que o preço do vinil no Brasil é caro. Você como lojista e como selo, como vê isso, já que representa o lado de quem vende e também de quem produz?

Temos 3 segmentos distintos para analisar aqui:

Discos usados : começa com 0,50 centavos e vai ate os 25 mil dólares (caso extremo de um Beatles Butcher original selado). Este preço esta subindo por conta do aumento da demanda, diminuição da oferta, especulação e a “contrapropaganda” na mídia que faz qualquer pessoa que tenha os discos dos anos 80 do Roberto Carlos achar que vão trocar de carro ao vender “estas relíquias”.

Discos novos: Se nacionais, paga-se muito mais aqui do que pelo mesmo produto nos EUA/Europa por conta dos custos nacionais (alta carga tributaria/trabalhista) pequena produção e número de vendas ( não há como esperar que um Tim Maia venda o mesmo do que um Beatles por exemplo). Se importados, o frete normalmente custa quase o valor do LP + 70% de imposto sobre o valor do LP+frete.

Lançamento próprio: Quando reeditamos um vinil, temos uma quantidade de custos associados que poucos fazem ideia (estes custos incidem igualmente por exemplo quando a Polysom relança um titulo no selo deles). A saber: Licenciamento fonográfico junto ao artista ou gravadora (eles tem direito a definir quanto cobrarão por unidade produzida para liberar a reedição do disco, isto é a musica gravada em si); Licenciamento autoral (taxa paga a editora administradora da “letra da musica” por assim dizer) – o artista deixa uma editora administrando a utilização da musica, e se você for regravar ou relançar, paga uma taxa para eles, que é repassada ao artista. Arte da capa (paga-se para um profissional fazer a arte final). Direito de imagem (dependendo do caso, você paga pela utilização das fotos). Impressão da capa. Mixagem, produção do master e Prensagem (custos separados). E você tem ainda frete da fabrica para o selo. Embalagem, margem de lucro do selo e impostos de venda.

Então eu não acho que o vinil “seja caro”, o vinil custa a soma de todos estes fatores e os novos colecionadores acham que é caro ao comparar com os valores de um CD, ou pela simples facilidade de se consumir musica online. Nos EUA ou Europa um LP novo 180 gramas custa em média 75,00 – 85,00. Considerando o quanto custa no Brasil a operação de se fabricar ou de importar e revender, tenho de discordar que seja caro. Nosso poder de compra que é pequeno em relação ao valor do Vinil.

5 – E, de fato, o que mais sobrecarrega o preço do vinil?

Usados: especulação dos colecionadores

Importados : imposto/frete meio a meio mesmo

Fabricação nacional : licenciamentos

6 – Levando em consideração que o comprador de uma loja online desembolsa 2 valores que culminarão no preço final para ele: o disco em si e o frete. Sobre o frete: há alguma política que no curto prazo possa diminuir este custo, pois, o fim do e-Sedex provavelmente trará um prejuízo muito grande para o comprador? E pode trazer prejuízos para o vendedor?

Infelizmente estamos subjugados aos correios, no entanto, lojas sérias tem contrato com eles e podem se beneficiar do E-sedex, que apesar da tentativa dos correios em cancelar o serviço, está mantido por ordem judicial. Para quem não conhece, o e-sedex é exclusivo para lojas virtuais onde toda a compra é realizada online, inclusive o pagamento. Esta modalidade custa bem menos que o SEDEX, em muitos casos, menos até que o PAC e tem as mesmas características de tempo do Sedex. Não há no Brasil uma alternativa a este serviço, e não vejo viabilidade posto a nossa dimensão territorial e problemas de infraestrutura. O que o comprador pode fazer para minimizar isto é comprar em lojas que tenham o serviço e-sedex e privilegiar lojas que deem frete grátis à partir de um determinado valor (no nosso caso R$ 250,00). Outra dica é comprar mais de um LP por vez, beneficiando-se do valor do frete, já que em media a tarifa cobrada comporta ate 3 LPs.

Agora, vamos falar um pouco do seu lado produtor, dono do selo Record Collector Brasil que recentemente lançou um badalado disco (junto com o 180 Selo Fonográfico) do Raul Seixas que fez o maior frisson com a galera que curte Raul.

7 – Quais os discos que a Record Collector já lançou?

Diretamente pelos selos Record Collector / Selo 180 que é uma parceria, fizemos o Galaxies de 1968, relançamento da banda psicodélica Paulistana (com duas faixas inéditas) e mais recentemente o Isso Aqui Não é Woodstock, ao vivo em 1981, inédito em vinil, do Raul Seixas. Mas nós já havíamos feito algumas parcerias como produtor, localizando o artista, intermediando liberações e produzindo textos dos encartes/entrevistando os artistas para reedições do selo Alemã Shadoks com os discos: Hugo Filho – Paraibô de 1978, O Bando, de 1969, O Liverpool – por favor, sucesso de 1969. Também fiz o mesmo trabalho com os CDs da Lion Records USA do Leno – Vida e Obra de Johnny McCartney e A bolha. Isto bem no principio do selo, quando ainda era virtualmente impossível reeditar os discos no Brasil.

8 – Dentre os lançados, quais lhe deram maior prazer e explique o motivo?

Sem dúvida o Isso Aqui Não é Woodstock do Raul Seixas. Eu comecei a colecionar discos por conta do Raul, sempre fui muito ligado na obra dele, um estudioso mesmo, e com esta edição tive oportunidade de pesquisar e descobrir detalhes inéditos da carreira do Raul nos anos 80/81 que foram sempre pouco documentados, além de ter muito contato direto com personagens da historia dele como o Sylvio Passos, a Kika Seixas e os músicos que tocaram com ele neste show. Era um “sonho que eu não tinha”, lançar um disco do Raul! Nunca me atrevi a sonhar com isso, dado a impossibilidade, mas parafraseando o próprio “Mas é preciso você tentar, Talvez alguma coisa muito nova possa lhe acontecer”. Está ai, lançado e esgotado a primeira tiragem de 600 cópias em 48 horas!

9 – Sendo o selo aquilo que lança músicas e artistas e que também organiza a distribuição e venda de um disco, como você, especializado em lançar vinil, vê este mercado frente ao streaming? E frente ao CD?

O consumidor de CD e Streaming não é necessariamente o mesmo consumidor do vinil, eu mesmo, não ouço musica que não seja em vinil, sequer tenho toca CD em casa, e não baixo nem escuto musica digitalmente. São mercados diferentes, o colecionador de musica em vinil é fiel, e sempre procura adquirir novos títulos. Pessoalmente vejo o CD como uma mídia encolhendo e que atendera apenas um nicho de mercado reduzido.

10 – Qual a maior dificuldade para um selo especializado em vinil?

A liberação dos fonogramas (da gravação em si), pois as inúmeras gravadoras do pais foram sendo adquiridas pelas grandes, chegando ao ponto de que Universal Music e Sony Music dominam grande parte das gravadoras, e estas simplesmente se recusam a liberar qualquer material para nossos selos. De fato, a única empresa que consegue alguns títulos é a Polysom por conta da proximidade dos diretores destas gravadoras com os proprietários da Polysom, mesmo assim, a liberação e muito pequena em relação ao que poderia ser prensado no pais. Nós só conseguimos autorizações com algumas gravadoras fora deste grupo, notadamente a Som Livre e Eldorado, que tem sido grandes parceiras e de produtos lançados de maneira independente ou material inédito, isto quando o artista entende que o valor deste produto não é “milionário” já que as tiragens em geral são de 500-1000 copias apenas. Não há como diluir 50 mil reais de fonograma em 1000 discos!

11 – E quais seriam as novidades que vêm por aí pelo selo Record Collector?

Já em produção temos a reedição do LP Metrô Linha 743 do Raul Seixas, com uma faixa bonus inédita em VINIL: “Anarkilópolis”, o mítico Vida e Obra de Johnny MacCartney do Leno, e o Sweet Edy do Edy Star, todos para 2017, mas temos muito material inédito do Raul Seixas em estudo, junto a Sylvio Passos, o fiel guardador deste acervo e da Família e herdeiras do Raul.

12 – E, por fim, o que você pensa do mercado brasileiro de música em geral?

Infelizmente não tenho como opinar com honestidade neste tópico, pois como só ouço musica em vinil, não ouço rádio, e fico a margem do que esta na mídia. Pessoalmente foco minha coleção nos anos 60/70 e na MPB dos anos 70. Pelo que observo as grandes gravadoras estão perdidas no modelo de negocio tradicional, já que os CDs não vendem mais aos milhões, e o artista ficando órfãos dos grandes contratos. O artista acaba conseguindo sobreviver de shows e a indústria musical talvez tenha de focar no streaming e produtos do segmento luxo, como box, e edições especiais.

Fred, o Universo do Vinil agradece e temos certeza que suas palavras vão contribuir muito para a percepção do “cenário vinil” brasileiro! Valeu!

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