O mercado de música entre o streaming e o vinil

Em todo o mundo as notícias do aumento vertiginoso do streaming de música vem mostrando números espantosos. São bilhões de dólares anunciados e milhares e milhares de novos adeptos a este modelo de negócio da música. As estatísticas não mentem e mostram exatamente um aumento vertiginoso. Avaliem os números americanos:

Ok, beleza pura! Todo o mundo batendo palmas, feliz e contente que a indústria fonográfica está saindo do vermelho e os artistas voltando a ganhar milhões com as vendas de suas músicas. Mas… não é bem assim!

Há sinais de alerta nestes números e eles precisam ser contados ao público, pois, muito do que foi mostrado não remete à realidade. As estatísticas não metem, mas podem ser camufladas. Vamos desvendar?

Primeiro: este modelo do streaming só conseguiu amealhar muitos assinantes num espaço de tempo relativamente pequeno (reparem no primeiro quadro que em um ano pulou dos 34% de aumento para 51%) porque fez uma campanha maciça para conseguir mais gente a partir da ação sobre os preços. Muitas promoções foram realizadas (e continuam sendo feitas) para diminuírem os valores das mensalidades a ponto de colocarem 04 pessoas numa única conta com preços que deveriam ser de um único assinante ou, promoções onde o que custava 14 dólares passou a ser 1,99$.

Mas, ninguém contou algumas coisas:

A) Houveram aumentos nas receitas, mas não houveram lucros.

B) Também não contaram (um fato que foi alardeado sobre 2015, mas não entendemos os motivos de ter sido escondido nas divulgações sobre 2016) que as vendas de mídias físicas (o conjunto de vendas de CDs, DVDs e discos de vinil) continua sendo maior que o serviço de streaming gratuito – mesmo com as vendas de CDs e DVDs caindo a mais de 15%.

C) Anunciaram um ou outro artista que conseguiu lucros exorbitantes com as plataformas de streaming, mas, não disseram que a grande, quase a totalidade – com exceção dessa meia dúzia de artistas – não consegue ganhar nenhum tostão com este tipo de oferta de música. Às vezes nem visibilidade, porque há milhões de melodias nestes serviços e alguém conseguir se despontar só gastando muito em publicidade para conseguir ser visto (ouvido, né?).

D) Se juntarmos os downloads (de álbuns inteiros e de músicas separadas)  com as vendas de mídias físicas este valor é bem superior ao do streaming pago

E) E como é uma atividade no campo da informática, o aumento de usuários remete ao aumento de maquinário, pessoal e tecnologia e isso não é nada barato. Portanto, os preços baixos podem estar com os dias contados.

E, por isso, o alerta, por enquanto é um sinal amarelo que foi disparado: O SoundCloud (uma das maiores plataformas de música na Internet) acaba de anunciar um prejuízo de 70 milhões de dólares e irá demitir 40% de todo o seu pessoal.

Qual conclusão podemos chegar? A maior delas é que há algo além dos aviões de carreira neste céu azul e limpo que deslumbram sobre o streaming. A verdade sobre isso é que as majors (as 3 maiores gravadoras do mundo, Sony, Universal e Warner) começaram a apostar neste modelo injetando milhões de dólares no negócio (que não é delas, mas passaram a ser acionistas) e acham que é a tábua de salvação para a falida e quase falecida indústria fonográfica. É uma aposta de milhões de dólares e isso não pode, para elas, dar errado, pois, vários passos que foram dados com o advento da digitalização da música resultaram em enormes prejuízos. Portanto, o streaming vem sendo apontado como uma grande saída para uma economia que já foi bilionária e desde os anos 2000 vem amargando uma lenta recuperação.

Mas, e o vinil?

Primeiro precisamos, infelizmente, dizer que a indústria fonográfica em geral (excetuando os pequenos selos e gravadoras – as famosas indies) não entenderam muito deste negócio nos últimos tempos e estão acordando tarde e a mídia oficial (grandes canais de TV, jornais e revistas) também não ajudam muito pois tratam, geralmente, os discos de vinil como modismo e coisas de hispter e já perderam o timing para analisar este mercado, atrapalhando mais do que ajudando no enraizamento da mídia de plástico preta frente ao grande público – mostrando muitas vezes matérias com erros crassos sobre o tipo de fã, modos operandi dos toca-discos, preços dos discos e etc. Quem faz o trabalho mostrando a realidade dos discos de vinil e sua economia são sites e blogs como o nosso UV – e sabemos de nossas limitações para chegarmos às massas e por termos pequena inserção, não ajudamos mais já que, normalmente, atingimos um público que é compreendedor este mercado.

Segundo é que a demanda é maior que a capacidade de fabricação dos discos e isso cria problemas enormes. Mesmo com o aumento das fábricas, elas ainda não conseguem produzir o que o público pode absorver gerando déficits na relação oferta e demanda, ocasionando atrasos nas entregas das encomendas que cria insatisfações para compradores e artistas/gravadoras e, ao mesmo tempo, travando qualquer possibilidade de diminuição dos preços no varejo.

Mas, paremos para pensar: e o passo da Sony em abrir uma fábrica de vinil, o que representaria, afinal, ela não dá ponto sem nó – lembremos que é uma poderosa major?

Este passo dado não foi uma coincidência qualquer. A Sony como a Universal e a Warner, com certeza enxergam os números das vendas dos discos de vinil, mas, talvez, nunca tenham levado tanto a sério como agora. Enquanto as vendas das mídias físicas em geral caem mais de 15%, dentro delas existem os discos que ao contrário de suas co-irmãs vem seguidamente aumentando o consumo e lucros! Os discos de vinil representam o que de verdadeiramente traz lucro para artistas, fabricantes e gravadoras. Não são números maquiados, como os apresentados pelo streaming, e não é um aumento de cinco, seis anos para cá e sim desde 2000 que apresentam uma curva ascendente. Para se ter uma ideia, o mercado de vinil só dos EUA e do Reino Unido chegou perto de 17 milhões de cópias vendidas no ano de 2016. Isso ainda é pouco, se lembrarmos que nos tempo áureos dos discos alguns álbuns chegaram a vender mais de 3o milhões de cópias e hoje o grande vendedor de discos nos EUA (Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band dos Beatles) em 2016 teve uma saída de 39 mil cópias (quantidade vendida somente no primeiro semestre de 2017) . Mas, é um pouco que representa uma fatia real de ganhos para artistas e gravadoras.

Ainda sobre a fábrica da Sony, não podemos também perder de vista que ela pode ser apenas para o mercado local japonês (sim, ela será aberta da Terra do Sol Nascente) que é um dos poucos países onde o streaming não é o comandante do mercado de música. A venda de mídias físicas em nações como Japão, Alemanha e França continua muito forte e preponderante.

O relatório da IFPI (Federação Internacional da Indústria Fonográfica – você pode baixá-lo aqui) lançado em maio sobre os números de 2016 deixou bem claro, porém sem dar ênfase, que os discos de vinil juntamente com o streaming são as únicas mídias que realmente mostraram crescimento (guardadas as proporções das receitas, obviamente a do streaming foi muito maior) como, de fato, a tendência do restante das mídias (CDs, vendas por download e etc) estarem acentuando suas quedas nas vendas.

E precisamos prestar atenção numa coisa: o vinil não é igual ao streaming no tocante ao modo de operacionalizar e, por isso, envolve toda uma cadeia produtiva que gera empregos, lucros e dividendos para vários setores da economia. Para tocar vinil, precisamos de toca-discos, sistemas de som e acessórios! Não é como o streaming que está na ponta dos dedos de um smartphone que pega carona numa indústria onde seu foco principal não é a música. Produzir toca-discos, acessórios, movelaria própria e sistemas de som é fundamental e a indústria já acordou para isso e vem lançando inúmeros modelos no mercado com preços para todo tipo de classe social (excetuando o caso brasileiro que ainda está dormindo neste ponto).

A Sony “acordou” do marasmo do entendimento sobre os vinis e deu o primeiro passo e a indústria de eletrônicos e de acessórios já faz tempo que estão atentas a este comércio que analistas acreditam que movimentará um bilhão de dólares neste 2017, ofertando toca-discos, acessórios, aparelhos de som e móveis para todo tipo de bolso. Bem como, hoje já é possível abrir fábricas de discos com maquinários novos e recém construídos (coisas impensadas até o início de 2016). Falta o restante das majors abrirem suas fábricas e aumentarem a produção, porém, não sabemos se a entrada das majors trará facilidades ou tentarão impor (como historicamente fizeram) seu modelo de negócios também para os disquinhos pretos de plástico, mas há um alento nisso: o streaming vem mostrando para as Grandes que hoje elas não estão mais sozinhas e donas da indústria fonográficas – há outros participantes – e o vinil também mostra este mesmo fator, pois desde 2000 sobrevive e muito bem sem a participação delas.

A entrada da Sony na fabricação de discos acenderia um sinal de alerta? Com certeza sim! E acende para o início de um start que pode ser tanto negativo como positivo. Negativo, no sentido de que podem influenciar nos preços dos discos para os consumidores, pois seu vasto catálogo permitirá ofertar álbuns que estão na mira de compradores há muito tempo e para muitos destes o preço não será problema e , assim, iniciar uma possibilidade em influenciar nos preços em geral. Positiva, pois é mais uma fábrica onde sua dona é, como dito acima, detentora de um catálogo enorme, variadíssimo e recheado de pérolas que certamente irão beneficiar muitos amantes da música.

Somando estes fatos, podemos dizer: muita água ainda irá rolar neste mundo do comércio da música e o vinil está só (re)começando? Não! Ele já começou faz tempo e provavelmente será peça fundamental nesta economia, afinal, é a única mídia que cresce com lucro! Aguardemos as consequenciais destes acontecimentos para os próximos anos! Quem viver, verá!

 

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