A Nova Era do Vinil – Parte 2: dilemas e obstáculos para a longevidade da cultura do vinil

Na Conversa de Vinil passada afirmamos que vivemos numa Nova Era do Vinil, que este papo do vinil está voltando ou o vinil não morreu é ultrapassado e não reapresenta mais a forma como o mercado fonográfico, os fãs dos disquinhos pretos de plástico e a cultura musical vivem e convivem com esta mídia. Mostramos as características que nos embasam para esta afirmativa e hoje vamos apontar os obstáculos que ainda temos pela frente para que esta Nova Era seja mais longeva e que abranja mais pessoas no entorno do vinil. Como também a conclusão destes 2 escritos, que na verdade, compõe um único artigo.

Vamos lá?

Se antes quiser ler a primeira parte, não se acanhe, vá lá clicando no link: A Nova Era do Vinil – parte 1: o enraizamento do vinil na cultura da música e no mercado fonográfico

Como já entendemos pelo artigo anterior, os fenômenos do mercado fonográfico, da indústria de eletrônicos voltada para o áudio de consumo e vários outros acontecimentos vêm marcando os discos de vinil como uma opção real e fundamental para a cultura musical e o mercado de venda de músicas.

Os disquinhos pretos são realidades no comércio e nos lares e estão em franco crescimento desde o ano 2000 – são quase 2 décadas e a publicação Fortune vai além, apontando 28 anos de vendas crescentes – e a expectativa é que continue na curva ascendente mundialmente, porém, existem gargalos que precisam ser melhorados para que o enraizamento seja cada vez mais forte, mais profundo e duradouro.

O que nos falta ainda ou o que precisa ser melhorado?

  • Em primeiro lugar precisamos entender que o vinil é um nicho de mercado. Ele jamais alcançará o publico em geral, mas este nicho pode ser ampliado e para isso os preços altos dos disco são empecilhos reais, porém, entendemos que o vinil não é barato por natureza, mas podem ocorrer investimentos em novas tecnologias e métodos de produção que ajudem a diminuírem os custos.
  • Segundo lugar: a mídia precisa chegar às pessoas. O continente africano ainda não tem nenhuma fábrica e vários países do mundo também não as tem (a grande maioria, pois, só existem fábricas em 26 países), portanto a logística de distribuição é complicada e pode ajudar a onerar os preços finais dos discos com os impostos de importação existentes nos variados territórios nacionais, bem como, com o transporte.
  • Terceiro: continuando falando de fábricas – estas, mesmo com todo o investimento dos últimos anos, ainda não dão conta da demanda, atrasando os prazos e isso auxilia os artistas, selos e gravadoras  a repensarem várias vezes se compensa ou não produzirem seus discos.
  • Quarto: enquanto os investimentos para os discos de vinil são reais e geram muitos dividendos, para os estúdios esta não é uma premissa verdadeira. Vários estúdios analógicos estão fechando motivados pelos altos custos, manutenção dificultosa e o barateamento das tecnologias digitais, criando o fenômeno da generalização de estúdios caseiros (home estúdio) ou de pequeno porte e geograficamente mais espalhados. Estes acontecimentos geram uma espécie de esquizofrenia do vinil, com duas personalidades: o master é digital, mas a mídia final é analógica – e essa composição nem sempre agrada aos ouvidos dos mais exigentes.
  • Quinto: os toca-discos mais baratos precisam apurar mais seu som e entregar uma audição mais prazerosa. Isso ocorre com o players de CDs que, independente do preço e do material usado para sua construção, emitem um sinal sonoro razoavelmente bom mesmo nos conjuntos mais populares e isso não ocorre com os toca-discos e vitrolas mais em conta.
  • Sexto: No caso brasileiro específico – a falta de uma indústria nacional de toca-discos ou uma política que possa abrandar os impostos de importação, impedem a oferta de tocadores mais baratos. Em países como os EUA ou Inglaterra existem toca-discos e vitrolas com preços mais abaixo que atingem estratos de menores poderes aquisitivos da população em geral, auxiliando no crescimento da cultura do vinil. Aqui estes mesmos tocadores são vendidos a preços altos que não condizem com a qualidade sonora que emitem. Nas terras Tupiniquins são poucos os que podem comprar um aparelho destes.
  • Sétimo: por ser difícil a aquisição de novos toca-discos, o mercado de usados vintage está super aquecido provocando aumento de preços e o escassez da oferta.
  • Oitavo: a assistência técnica dos velhos e novos toca-discos é outro problema brasileiro. Para os novos, por serem importados e manterem-se à mercê do dólar, a continuidade de reposição de peças é problemática para as empresas importadoras, bem como a continuidade destas mesmas no mercado. Por outro lado, os antigos e vintage, por questões óbvias, não têm reposições de novas peças já que são aparelhos descontinuados há muito tempo.
  • Nono: Apesar de muitos jovens já entenderem e participarem da cultura do vinil, esta mídia ainda precisa alcançar mais fãs das faixas etárias mais novas – apesar dos números recentes do mercado mundial mostrarem que os jovens estão, de fato, entrando na onda do vinil e adquirindo discos. As mulheres não são muito adeptas deste formato de mídia musical. O vinil continua eminentemente masculino.
  • Décimo: as grandes gravadoras – excetuando a Sony Music que, inclusive, abrirá uma fábrica própria no Japão – ainda não estão entrando de cabeça na cultura do vinil e o papel delas é importante, pois, são as detentoras dos maiores catálogos de álbuns, artistas e músicas existentes no mundo, assim como, a capacidade de distribuição das obras são requisitos que as majors tem de sobra, facilitando a penetração dos discos em mais camadas da população.
  • Décimo primeiro: precisamos entender os números. O alarmismo da Neilsen Músic ao afirmar que as vendas de vinil nos EUA cresceriam apenas 2% no primeiro semestre de 2017 gerou um certo pessimismo em alguns, contudo a forma da escrita sobre este resultado e a representatividade dele não mostraram a realidade. Em contrapartida, a RIAA (o braço institucional das grandes gravadoras americanas) mostra um número maior de crescimento nestes primeiros 6 meses de 2017, 3,2%, porém, afirmam que as vendas não aumentaram e sim as receitas foram superiores por um acréscimo nos preços finais dos discos. Contudo, os discos de vinil vão muito bem, obrigado, nos maiores consumidores de mídias físicas do mundo, a saber: Japão, Alemanha, França e Inglaterra. O volume destes 4 juntos somado a outros países importantes, ultrapassam o volume americano do norte. E qual o fator negativo num crescimento de 2% ou 3,2% num mercado extremamente competitivo como o do Tio Sam? Inclusive, não crescerá mais! Provavelmente nos próximos 3 anos não haverá aumento substantivo no total de discos comercializados no Gigante Mundial, já que não têm fábricas suficientes para suprirem a demanda – para vender, precisa fabricar, é uma questão de lógica!
  • Décimo segundo: a mídia oficial não entende o vinil. São pouquíssimos jornalistas (quase zero) especialistas sobre o assunto. Muitos entendem muito bem e são altamente competentes sobre música, álbuns, artistas e gêneros musicais, mas praticamente nenhum compreende a economia do vinil, seus melindres e meandros com a indústria fonográfica e suas tecnologias, criando matérias que nem sempre mostram a realidade dos fatos e o uso destas tecnologias para o grande público o que, geralmente, cria mais equívocos que acertos.
  • Décimo terceiro: a mídia alternativa (blogs e redes sociais) especialistas em discos de vinil atinge um público resumido, porém, é ela quem faz o melhor trabalho de desmistificação e uma espécie de alfabetização sobre o vinil, todavia, por atingir um público de número efêmero não consegue levar as boas novas dos disquinhos pretos à população em geral.
  • Décimo quarto: O 12º e o 13º item poderiam ser resumidos sobre o problema de comunicação que ainda existe sobre o mercado de vinil, já que as grandes gravadoras e fábricas quando querem anunciar seus produtos e novidades utilizam da mídia oficial e acabam não gerando dividendos para a mídia alternativa (patrocínio, propaganda e tráfego) fazendo com que a maioria dos bons blogs e espaços nas redes sociais tenham vida curta por falta de condições financeiras para a sua manutenção e são estes espaços aqueles que geram, normalmente, melhores serviços informativos para o mundo do vinil.
  • Décimo quinto: muitas lojas de discos fecham nos 3 primeiros anos de vida, porém, esta é uma lógica que atinge a todo e qualquer tipo de comércio. Um estabelecimento comercial para se manter por muito tempo precisa de algumas compreensões que não vem ao caso enumerarmos aqui, porém, é sabido que não é apenas abrir a loja e os clientes irão frequenta-la. Isso é uma questão do mercado, da economia e da gestão em geral e não um fenômeno específico das novas lojas de discos.

Estes 15 itens são alguns gargalos que ainda temos para que a cultura do vinil se enraíze mais ainda. Porém, são problemas que, mesmo alguns sendo fortemente negativos, não ocasionaram quedas nas vendas e nem diminuição dos adeptos e fãs. Isso mostra que os pontos positivos (leia-os no artigo anterior de 17 de setembro) estão conseguindo suplantar e manter ano após ano a cultura do vinil viva.

Em suma: as questões negativas não conseguiram contaminar o vinil de hoje!

E por que falamos de cultura do vinil?

Como dito no início da 1ª parte deste artigo, o vinil hoje é tratado de forma bem diferente do período áureo (meados dos anos 90 para baixo). No século XX esta mídia era praticamente a única existente para o consumo de música (tinham as fitas K7 também) e não existia qualquer pensamento de proteção, salvaguarda ou compreensão do papel desta mídia no cotidiano. Nos dias de hoje, existem características que ultrapassam o mero escutar música a partir dos discos de vinil e podemos citar algumas:

  • O vinil é um estilo de vida também. Muitos fãs dos disquinhos estão envoltos a um retorno – mesmo que seja apenas estético – ao mundo analógico, portanto, acompanha uma tendência existente em certos grupos sociais.
  • De acordo nossas 2 pesquisas sobre o fã de discos de vinil (em 2016 e 2017, atingindo ao todo mais de 1300 respondentes), há uma parcela significativa de consumidores de música que utilizam apenas o vinil como fonte sonora para a audição de suas melodias prediletas e um outro contingente (maior que o primeiro) em que o vinil é a mídia preferida e vem em primeiro lugar – este só adquire ou utiliza outras mídias na falta do vinil.
  • Por existir uma oferta muito grande de música gratuita (seja via pirataria, streaming ou outros meios) adquirir um vinil passou a ser uma forma de mostrar (mesmo que seja só para si) o apreço a uma obra. Este acontecimento é diferente de décadas passadas onde a compra do disco também existia para valorizar o artista que gostava, porém, hoje a demonstração deste gosto é mais significativa, já que não é necessário comprar nenhuma mídia para ter suas músicas favoritas em mãos.
  • Alguns gêneros musicais, como o rock, por exemplo, utilizam da mídia vinil como forma de representatividade do seu conceito. Geralmente, roqueiros e bandas ao pensarem em armazenamento de música, já logo associam com o vinil. É, portanto, um modelo de representatividade de uma mídia para um estilo de música – e tanto é que as vendas dos clássicos do rock como Beatles, Pink Floyd, Led Zeppelin e outros alcançam as maiores vendagens.
  • A criação (ou recriação) do DJ especialista em vinil dando outra opção no cenário do entretenimento com música mecânica. Na 1ª Era do Vinil, obviamente, os DJs utilizavam os discos para suas performances, hoje, isso é um diferencial e acabou criando uma espécie de especialidade neste ramo
  • Por fim, a associação imagética do vinil como aquilo que representa música. Por mais que os discos de vinil tenham sumido da mídia por um bom tempo, ele ainda é muito presente na consciência coletiva das pessoas e a imagem do disco preto se mantém como um símbolo que ao ser colocado em qualquer situação faz imediatamente a alusão a uma mídia de música, quando não, à própria música em si. Portanto, é algo realmente bem presente na mentalidade humana e arraigado na cultura.

Com estes poucos quesitos podemos ilustrar o quanto a vida com o vinil é nos dias de hoje bem diferente do seu período áureo e essa diferença é fundamental e muito importante, pois, ela acaba criando um modelo que distancia dos anos anteriores e faz com que o trato com o vinil seja bem distinto no hoje e no ontem. Desta forma, as 2 Eras do vinil são díspares não apenas no número de vendagens, mas também no trato e na forma de se conviver e utilizar a mídia e isso é muito bom e separa bem os períodos, lhes dando características distintas. Assim, podemos afirmar que a cultura do vinil na sua primeira Era continha a cultura da música em geral – praticamente não existia pensar a música sem pensar no vinil – e hoje a cultura do vinil está contida na cultura da música, sendo um subproduto.

Desta forma, com prós e contras, demonstramos que estamos, de fato, numa Nova Era de Ouro dos discos de vinil – com toda certeza ainda existem muitos problemas e questões para serem resolvidas e aprimoradas, todavia, não é uma Era embrionária. Ela já chegou e está aí! E no computo geral o vinil se afirma como uma mídia que se incrustou na cultura musical e na economia da música dos dias de hoje .

Vida longa para o vinil e para a boa música e apreciem seus discos sem moderação!

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