Dez discos para conhecer o rock argentino

A ideia de escrever este artigo surgiu após uma viagem que eu e minha esposa fizemos a Buenos Aires no início deste ano de 2017. Lá passei por três lojas de disco: Oid Mortales, Bonus Track e Miles Discos e pude conhecer algumas bandas argentinas da década de 60 e 70.. Ao sair de cada loja, percebia que pouco conhecemos da rica história da música argentina. No entanto, a recíproca não era verdadeira: em todas as lojas em que frequentamos havia discos de MPB, Bossa Nova e Rock Nacional dos anos 80. Senti-me, então, na obrigação de divulgar e inspirar os leitores a sair do eixo Brasil-Estados Unidos-Europa e conhecer mais do rock de nosso amado país vizinho.

Los Gatos / Artista: Los Gatos

Lançado em 1967 pela RCA/Vik o disco homônimo à banda “Los Gatos”, que foi responsável pela gravação do primeiro rock argentino presente neste álbum: “La Balsa”.

Composto por Litto Nebbia (voz, baixo), Ciro Fogliatta (teclado), Kay Galifi (guitarra), Oscar Moro (bateria) e Alfredo Toth (guitarra), Los Gatos é considerado o precursor do rock de autoria argentino, uma vez havia muitos grupos que cantavam somente versões, análogos à nossa Jovem Guarda.

 

Almendra / Artista: Almendra

Gravado em 1969 no estúdio RCA/Vik, “Almendra” ou “disco da lágrima”, como é chamado, é o primeiro álbum da banda de mesmo nome e considerado um dos mais importantes discos da história do rock argentino por sua qualidade e originalidade através da inserção de novos elementos sonoros, o que provocou o início da criação de uma identidade do estilo no país em uma época em que versões de canções americanas dominavam o cenário musical. O grupo foi formado em 1967 pelo guitarrista e vocal Luis Alberto Spinetta, Edelmiro Molinari na guitarra, Emilio del Guercio no baixo e pelo baterista Rodolfo Garcia.

Almendra foi a primeira banda de Spinetta, que, além de guitarrista e compositor, era poeta e escritor e é referência na história da música da América Latina. Tal reconhecimento será provado neste artigo por suas diversas contribuições a musica argentina.

Neste álbum não há como enfatizar uma canção apenas. Seria muita injustiça para com as outras. Recomendo ouvir o disco do início ao fim. É todo coração – e lágrima.

Vida / Artista: Sui Generis

Sui Generis foi uma dupla formada em 1969 por Charly García – piano, violão e voz – e Nito Mestre, flauta, violão e voz e pôde contar com diversos músicos convidados ao longo da gravação dos discos.

Com notas de folk e blues, “Vida”, lançado em 1972, foi o primeiro dos três álbuns de estúdio da banda (“Confesiones de Invierno” e “Pequeñas anécdotas sobre las instituciones”) antes da separação em 1975, quando foi gravado o álbum ao vivo “Adiós Sui Generis – Parte I, II e III”. No ano de 2000, a dupla se reuniu para gravar o quarto e último álbum de estúdio “Sinfonías para adolescentes”. Em “Vida” destaco as faixas “Canción para Mi Muerte” , “Necesito”, “Estación” e “Quizás, Porque”.

Charly García é uma das figuras mais influentes e fundamentais na música contemporânea argentina. Além de Sui Generis, fundou também o grupo Serú Girán e atualmente faz carreira solo. Tem cerca de 50 discos gravados em 48 anos e ganhou diversos prêmios ao longo de sua carreira, como Grammy Latino. Em 2010, Charly foi declarado cidadão ilustre da cidade de Buenos Aires.

El Jardín de los presentes / Artista: Invisible

Ao lado de Carlos Alberto “Machi” Rufino no baixo, Tomás Gubitsch na guitarra e Hector “Pomo“ Lorenzo na bateria, Luís Alberto Spinetta cria em 1973 sua terceira banda após Almendra e Pescado Rubioso, chamada de Invisible.

O grupo lançou em 1974 e 1975 os álbuns “Invisible” e “Durazno sangrando” e em 1976 lançam pela CBS o disco mais importante da carreira da banda: “El Jardín de los presentes”, que é listado dentre os melhores álbuns da história do rock rrgentino. “El Jardin” possui influências de Rock Progressivo, Jazz e Tango Contemporâneo, estilo iniciado por Astor Piazzola. Destaque para as canções: “El Anillo de Capitán Beto”, “Ruido de Magia” e “Las Golodrinas de Plaza de Mayo”, sendo esta última com peso do Tango de Piazzola.

Manal / Artista: Manal

Manal foi um trio composto em 1968 por Javier Martínez (bateria e voz), Alejandro Medina (baixo e voz) e Claudio Gabis (guitarra). Ao lado com Los Gatos e Almendra, foi um dos precursores do rock argentino. O álbum homônimo ao conjunto foi lançado em 1970 pelo selo Mandioca e tem estilo marcante do Blues Rock, parecido com o Cream, de Eric Clapton. Destaque para as faixas: “Avellanade Blues”, “Jugo de Tomate” e “Avenida Rivadavia”, que é uma importante avenida na cidade de Buenos Aires.

 

Canción Animal / Artista: Soda Stereo

No ano de 1982, Gustavo Cerati (voz, guitarra), Héctor “Zeta” Bosio (baixo) e Carlos Alberto Ficicchia (bateria) fundam o Soda Stereo, a banda que teria quatro de seus álbuns na lista dos 250 melhores discos de rock latino-americano pela revista americana Al Borde, ficando “Canción Animal” no 2º lugar, que fora lançado em 1990 pela CBS.

Em 2002 a revista Rolling Stone com os 100 maiores hits do rock argentino, a canção “De música ligera” presente no álbum foi eleita a 4ª melhor. Aqui no Brasil a conhecemos pelas versões do Paralamas (“De música ligeira” e Capital Inicial (“À sua maneira”).

Jeremias Pies de Plomo / Artista: Vox Dei

Ano de Lançamento: 1972 (Disc Jockey)

Apesar de muitos considerarem La Bíblia – a primeira ópera rock em espanhol – como o melhor álbum de Vox Dei, chamo atenção para “Jeremias Pies de Plomo”. Com um ritmo de blues e rock, o terceiro disco lançado pela banda formada por Willy Quiroga (baixo e voz), Ricardo Soulé (guitarra e voz) e Rubén Basoalto (bateria) demonstra uma grande qualidade sonora e tem como destaque as faixas “Jeremias Pies de Plomo”, “Juntando Semillas en el Suelo”, “Ritmo y Blues com Armonica” e “Sin Separarmos mas”.

Dulce Navidad / Artista: Attaque 77

Formada em 1987 por Federico Pertusi (voz), Ciro Pertusi (baixo), Mariano Martinez (guitarra) e Leonardo de Cecco (bateria), a banda de punk rock Attaque 77 lança seu primeiro álbum em 1989 pelo selo independente Radio Trípoli, responsável pela projeção de diversas bandas de rock iniciante. Com grande influência de Ramons, The Clash e Sex Pistols Em “Dulce Navidad” nota-se uma pesada influência de Ramones, The Clash e Sex Pistols. As canções de maior destaque são: “Hay una Bomba en el Colégio”, “Sola em la Cancha” e “No Te Quiero Mas”. Curiosidade: o nome “Attaque 77” ou “A77aque” tem origem no ano de início do movimento punk: 1977.

Candiles / Artista: Aquelarre

Lançado no ano de 1972 pelo selo Trova, Candiles foi o segundo álbum de estúdio da banda de rock progressivo Aquelarre, criada no ano anterior por Héctor Starc (guitarra), Hugo González Neira (teclados), Rodolfo García (bateria) e Emilio del Guercio (baixo e voz), sendo estes dois ex-integrantes do Almendra. O grupo possuía uma base rítmica muito sólida, com destaque para a guitarra de Héctor Starc. Infelizmente no momento de maior popularidade se viram obrigados a emigrar para a Espanha em 1976 devido à iminência do Golpe de Estado na Argentina, para onde também foram diversos grupos argentinos neste período. No entanto, não tiveram muito sucesso no velho continente e em 1977 decidiram diluir a banda. Sobre Candiles, o álbum inteiro tem uma excelente qualidade, com destaque a duas faixas: “Cruzando la calle” e “Patos transtornados”.

Curiosidades: O nome “aquelarre” refere-se à reunião noturna de bruxas com o diabo e a arte da capa é uma pintura do artista Goya datada de 1823 com o nome de “El Aquelarre” ou “El gran Cabrón” (“o grande Bode”).

Volumen 3 – Pappo’s Blues

Pappo’s Blues foi uma banda de blues rock argentino liderada por Norberto Aníbal Napolitano ou “Pappo”, como preferia ser chamado. Foi um dos precursores do estilo juntamente com o grupo Manal e o primeiro a introduzir o heavy metal na Argentina.

Pappo (1950-2005) foi considerado o melhor guitarrista do país e um dos melhores de todos os tempos, segundo o próprio BB King, com quem tocou junto no Madison Square Garden em 1993 (http://bit.ly/1Gwgcgn).

“Volumen 3” foi lançado em 1972 pelo selo Music Hall. A faixa metal “Sucio y Desprolijo” certamente é a estrela maior neste disco, que possui outras jóias sonoras, como o blues de “Siempre es lo mismo nena” e o folk de “Trabajando em el ferrocarril”.

Curiosidade: Em 1969, Pappo foi convidado a substituir o guitarrista da banda Los Gatos, grupo “fundador” do rock argentino, que também já citamos nesta lista.

Após lançar seu primeiro álbum, Pappo morou por uma temporada na Inglaterra, onde conheceu John Bonham, do Led Zeppelin e Lemmy Kilmister , do Motorhead, com quem tocou no início da banda.

Playlist no Spotify: http://spoti.fi/2wqUNtB

Endereço das ‘disquerias’ em Buenos Aires:

Oid Mortales – Av. Corrientes 1145, loja 17

Bonus Track – Av. Corrientes 1246, loja 39 – Galeria Del Optico

Miles Discos – Av. Honduras 4969, loja 1414

 

Por Pedro Fortunato

Pedro Fortunato, 32 anos, nascido no Rio de Janeiro, casado com uma paranaense, trabalha no mercado financeiro, apaixonado por música e amante do vinil desde que assumiu a coleção e o toca-discos Garrard 6300 de seu pai, que é seu grande mentor quando o assunto é música e equipamentos de som. Se tivesse que salvar três discos de sua coleção seriam: “Flash” – The Duke of Burlington ; “E Pluribus Funk” – Grand Funk (aquele em formato de moeda) e “Young Americans” – David Bowie.

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