Garimpando em Sampa

Aqueles que curtem o vinil desde o tempo que não havia CD nem MP3, sabem que garimpar LPs é uma das atividades mais prazerosas que existem. E, como todo prazer, às vezes pode virar obsessão, vício e até gerar traumas para toda a vida. Vou compartilhar algumas histórias para exemplificar o que digo.

Mudei para São Paulo, capital, em 1977, já com uma razoável coleção de LPs. Nessa época, muitos artistas de rock, como Lou Reed, não tinham os seus discos lançados no Brasil, então era motivo de festa quando você se deparava com, por exemplo, um exemplar importado do lp Berlin a um preço razoável. Como tenho um gosto diversificado, fui aprendendo alguns macetes para uma boa garimpagem: discos de rock raros a preço de banana você encontrava nas lojas especializadas em MPB ou Black music. Havia muitas espalhadas no calçadão do velho centrão. Já se eu quisesse um bom LP de soul, era só ir na galeria do rock, na Barão de Itapetininga. Lá eu achei um Songs in the Key of Life, do Stevie Wonder,  impecável, no valor de uma empada mais um mate com leite no Rei do Mate da avenida São João.

Mas as emoções mais fortes se reservavam para os discos de artistas brasileiros. Havia a história de “sair de catálogo”, o disco era lançado só em uma 1ª prensagem, depois sumia. Isso ocorria principalmente com os chamados “malditos”, que vendiam pouco e, apesar de cultuados, não contavam com investimento das gravadoras. O Azul e o Encarnado, do Ednardo, Cabeça, do Walter Franco, e Pérola Negra, do Luiz Melodia, consumiram tardes e tardes de caça pelas lojas Wop-bop e Ventania, no centro, Edgar e Eric Discos em Pinheiros. Foi nessa última que, enfim, garimpei um Pérola Negra “near mint”, e saí pulando Teodoro Sampaio acima, tal qual a mocinha que aparece na etiqueta da loja que, aliás, ainda existe.

Agora, a coisa vira fetiche e obsessão quando extrapola a música e parte para variáveis como “preço muito baixo” e “oportunidade imperdível”. São momentos tão intensos que você se lembra  do clima, da cor da parede e da cara do vendedor (a). Havia uma loja na avenida Ipiranga, em que eu vi com esses meus olhos gôndolas e gôndolas repletas de Tim Maia Racional, ao preço do churrasco grego que havia ao lado. Eu já gostava do Tim  mas, por motivos a serem apurados, preferi comer o churrasquinho. Até hoje tenho pesadelos com esse evento, aquela capa esotérica na minha mão, de repente tudo se desintegra.

Tempos depois, essa mesma loja fez uma queima de estoque. Como meu dinheiro era contadinho, não dava pra pegar tudo que eu queria, então eu levei primeiro os Blondies e Pretenders, depois separei o 1º disco do Cartola, o Confusão urbana, suburbana e rural do Paulo Moura e o álbum  branco do Hermeto gravado nos EUA. Usando outro macete de garimpeiro, coloquei-os no meio dos discos de punk, onde imaginava que ninguém que gostasse desse tipo de som fosse procurá-los. Voltei 3 dias depois, com a grana emprestada de amigos mais abastados, fui seco na gôndola do  punk, vira, revira, e cadê?? Por conta disso, passei um tempão com raiva de Sex Pistols e Ratos do Porão.

Já na avenida São João, no antigo cine Metro, depois de assistir uma retrospectiva do Hitchcock dos anos 50 (era a 1ª vez que aqueles filmes eram exibidos no Brasil), entrei automaticamente na loja ao lado, e eis que me deparo com duas outras pérolas: Contrastes, do Jards Macalé, e Cuban Soul, do Cassiano. Não fazia um ano que haviam sido lançados; o Macalé era outro “maldito”, mas não entendo até hoje porque esse disco fantástico do Cassiano saiu de catálogo, mesmo porque fez grande sucesso nas rádios. Enfim, o mesmo esquema: sem grana, coloca no meio dos clássicos, volta 3 dias depois e…..só encontrei o Macalé. A atendente, uma morena parecida com a Perla, ainda me disse pra completar o drama (e o trauma): “não faz meia-hora que o carinha levou”. E ainda cantarolou: “sei que você gosta de brincar…”

Quando olho no espelho, estou ficando velho e acabado, mas deu tempo ainda de pegar a reedição 180 gramas do Cuban Soul 18 kilates. Segundo a fábrica, “utilizando as matrizes analógicas originais”.

Vamos ouvir com atenção.

O autor:

ed

Sou Ed Calahani, 56 anos, moro em Bauru/SP, trabalho na prefeitura local, formado em Psicologia. Nasci em Avaré, também interior de SP, e morei por muitos anos na capital, onde adquiri o gosto por boa música, boa comida, boa bebida e boa companhia. Recentemente fui um dos vencedores do concurso de contos sobre músicas do Sérgio Sampaio