Jack White Acoustic Recordings 1998-2016

Por Valdeck Júnior

Ícone é aquele que se distingue, que é símbolo de uma época, ídolo. Jack White é um ícone de nossa época. Compositor, cantor, músico, ator, produtor e empresário. Formou sua primeira banda em 1997, um duo com sua esposa à época, Meg White, na qual ela tocava bateria, ou melhor, surpreendia todos com suas performances sobre aquele instrumento, sobretudo por sua postura descompromissada e relaxada, e ele fazia todo o resto. Não era, nem é algo comum uma banda com apenas guitarra e bateria. De logo imagina-se um som vazio, ledo engano quando temos alguém como Jack White por trás.

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“Jack White Acoustic Recordings 1998-2016” é uma compilação acústica que acaba de ser lançada pela Third Man Records, gravadora independente do próprio White que traz, de forma muito interessante porque respeita a linha do tempo do artista, uma releitura de toda a carreira desse talentoso musico com cara de vampiro, gosto pelo vermelho sangue e supersticioso com o número 3.
“Sugar Never Tasted So Good” foi sua primeira composição, data de 1996, foi lançada em 1997 como single e está no primeiro disco da banda, “The White Stripes”, de 1999. Uma mistura de garage rock, blues e punk era como soavam, algo no mínimo inusitado, contagiante e inédito; uma boa dose de oxigênio – ou lisergia – na música da época.

Não por acaso, é essa mesma música que abre essa compilação na qual o autor buscou gravações antológicas, inéditas, ensaios, tanto da sua antiga banda, quanto dos seus trabalhos com outros músicos, seus projetos, suas outras bandas e sua carreira solo.
A banda “The White Stripes” durou até 2010, embora em 2006 Jack também já estivesse envolvido com a banda “The Raconteurs”, e a partir de 2009 com a “The Dead Weather”, tudo ao mesmo tempo, prova da sua notável capacidade, conciliando ainda seu trabalho solo.
“Apple Blossom”, segunda música escolhida para a coletânea está no segundo disco da banda, “De Stijl”, de 2000. Foi com ela que ele se apresentou pela primeira vez na TV americana. “I’m Bound To Pack It Up” vem na sequencia, e aqui percebemos uma roupagem Zeppeliana, enriquecida por um violino tocado por um tio de Jack, um ponto alto do disco.

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“Hotel Yorba” tem a alma da “The White Stripes”, apenas a voz marcante de Jack, batidas no violão e bateria punk são a tônica. “We’re Going To Be Friends” eleva o nível, foi um sucesso da banda e aqui está linda, com Jack cantando de forma sublime. Se você estava de olhos fechados apenas sentindo essa música, continue assim, porque a próxima vai ainda mais fundo, “You’ve Got Her In Your Pocket” é uma bela canção apenas com voz e violão, quando podemos confirmar que às vezes menos significa mais.

Quem assistiu o filme “Cold Mountain” vai lembrar de “Never Far Away”, música que está presente na trilha sonora. “White Moon” é tocada ao piano por Jack para Meg em um momento solene lá em 2005, pouco antes da sua separação. “As Ugly As I Seem” vai às raízes do blues do Tennesse, Jack dedilha seu violão e Meg toca a bateria com as mãos, nada mais rústico que isso.

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Quando vi esse disco me veio imediatamente em mente os projetos de Bob Dylan quando este faz seus “bootlegs oficiais” acústicos, e a próxima música reforça essa minha visão. “Honey, We Can’t Afford To Look This Cheap” é tocada ao piano, a bateria acústica soa abafada e ouve-se no último minuto uns slides de guitarra que foram tocados por Beck.
Apenas duas músicas dessa coletânea foram tiradas dos Raconteurs, ambas do segundo disco. “Top Yourself”, que aqui aparece no estilo bluegrass, com banjo e violino, e “Carolina Drama”, numa versão acústica intimista, com Brendan Benson tocando slide no violão, uns backing vocals maravilhosos de Karen e Kate Elson, violinos solando à vontade e Jack mandando ver na sua guitarra.

A partir daí começa a fase da carreira solo de Jack e a primeira é “On and On and On”, uma música muito bonita onde ele canta “…só Deus sabe aonde estou indo…”, o que demonstra sua inquietude e incertezas. “Blunderbuss” é a faixa título do seu álbum de 2012, do qual também vieram “Hip(Eponymous) Poor Boy” e “I Guess I Should Go To Sleep”.

O disco encerra com três músicas do disco Lazaretto de 2014, com destaque para “Entitlement”, onde Jack invoca os músicos de Nashville, onde tudo começou, de onde vieram suas influências, alguns de seus ídolos, a sua formação musical que aliada ao seu talento natural transformaram-no em um artista que hoje é reconhecido pelos mestres e idolatrado pelos fãs.

O autor:

valdeck

Valdeck Junior é um sergipano apaixonado por música e surf. Nasceu e se criou em Aracaju, mas morou um tempo em Recife. Formado em Gestão de Empreendimentos Turísticos pela UNIT, atualmente cursando Direito, é servidor público do Poder Judiciário. Coleciona discos desde muito cedo, encantou-se pelos “long plays” ainda criança. Sempre curtiu rock e suas vertentes, principalmente os artistas mais antigos, a música da década de setenta. Tem mania de “garimpar”, descobrir aquilo que fora esquecido, resgatar preciosidades perdidas e buscar pérolas novas, ainda não apreciadas e difundidas pela maioria. É um jovem senhor bastante amigável, aberto a novas ideias e desafios, gosta de escrever e compartilhar suas experiências com quem se interessar. valdeck68@gmail.com