Início dos anos 2000: quando as gravadoras quase morreram.

Folha de São Paulo, 25 de agosto de 2001: “Desespero é hoje palavra de ordem entre as grandes gravadoras de discos do Brasil. Reunidos pela Folha numa entrevista conjunta, presidentes de quatro das seis multinacionais em ação no país e um representante da Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD, a instituição que os congrega) são unânimes em admitir que sua área de atuação desce ladeira abaixo com a rapidez de um apagão.
O grande motivo da aflição dos tubarões é a pirataria, que, segundo dados deles próprios, ocupava 3% do mercado em 1997 e hoje já ascendeu à proporção média de 50%. “Se nada for feito, se não houver vontade política de acabar com a pirataria, somos pessoas de uma espécie em extinção”, diz um dos peixões, Aloysio Reis (EMI/ Virgin), assombrado com a queda de cerca de 50% nas vendagens de discos neste semestre, em relação ao mesmo período do ano passado.”

Pois é! Este trecho acima é uma reportagem de 2001 e é praticamente a consequência de um ato de 1982: o ano que a Polydor alemã colocou no mercado o primeiro CD – “The Visitors“ do grupo Abba.

O UV em dezembro do ano passado trouxe na Conversa de Vinil o artigo 1987, 1996 e 1997: nascimento do Compact Disc no Brasil, o fim(?) do Vinil e a morte do CD e nele já mostrava o início da derrocada da poderosa indústria fonográfica (vale ler para complementar este papo).

Dizia-se no início dos anos 2000 que 70% dos CDs comercializados eram piratas e os selos e gravadoras caminhavam a passos largos para a morte. E foi o que quase aconteceu!

Em 1997 a Sony (que já era dona de um império da indústria de entretenimento) padronizava o MP3 e poucos anos à frente, a ripagem* de CDs para criarem MP3 dos discos, passou a ser uma coisa natural. Porém, essa ripagem só foi possível graças ao formato digital a partir dos CDs que passava a ser o padrão da indústria de discos

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Podemos concluir como resultado do parágrafo acima que a própria indústria forneceu o material para sua quase morte.

Eis a receita do quase suicídio:

Dos anos 90 à primeira década dos anos 2000 um vinil (música analógica) tornar-se música digital era algo só possível nos grandes estúdios. Esta tecnologia era caríssima e praticamente inexistente para o público comum. Com o Compact Discs (música digital) a ação de armazenar músicas no computador doméstico era perfeitamente possível graças a vários softwares que faziam tal tarefa e estavam disseminados nas máquinas e mais ainda quando inventaram e popularizaram o CD gravável e o gravador de CD. A pirataria de CDs estava, na prática, pronta!

No início os player de MP3 eram caríssimos e não tinham HDs com tamanho suficiente para inúmeras músicas. A popularização deste tipo de tocador de música só ocorreria e se divulgaria com a invenção do IPod pela Apple em 2001, porém a Creative já tinha no mercado o Nomad Jukebox e existiam várias outras marcas, mas nenhuma teve tanta aceitação comercial como IPod. Carregar música digital de forma portátil e simples estava se tornando um fato consumado.

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nomade

Só faltava uma coisa para o quase velório das grandes gravadoras: a música digital ser amplamente distribuída pela Internet sem o controle destas empresas.

E foi isso que aconteceu!

Em 1999 Shawn Fanning e Sean Parker criam um programa de compartilhamento de arquivos e uma empresa: a Napster! Esta empresa passou por várias situações na justiça com a alegação da indústria fonográfica de que não respeitavam os direitos autorais e sofreu sanções. Em 2002 o Roxio a compra e até hoje ela existe, porém, pagando os devidos direitos.

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Mas seu modelo de trocas de arquivos de MP3 pela Internet já estava difundido e o estrago feito!

Assim, juntando a ripagem de CDs (mesmo a indústria inventando várias formas para evitar isso), a fácil aquisição de CDs graváveis, a troca de arquivos MP3 pela Internet e players cada vez melhores e capazes de armazenar centenas e até milhares de músicas, o funeral da indústria de entretenimento embasada na distribuição em formato de discos estaria praticamente realizado.

Em suma, o modelo de negócios das grandes gravadoras estava falido e a pirataria de CDs correndo solta, sem contar os inúmeros e incontáveis downloads e compartilhamentos ilegais na Internet. Não se obtinha mais lucros que trouxessem alegrias a partir das vendas de discos. O que outrora entregava milhões e milhões de dólares, com a mudança do paradigma da forma de se comercializar e adquirir música, a indústria de discos estava praticamente falida, em especial no Brasil.

Neste intervalo fábricas de vinis já tinham sido fechadas aos monte pelo mundo à fora e a indústria fonográfica precisava se reinventar.

Numa próxima Conversa de Vinil falaremos sobre essa reinvenção que foi a adaptação ao streaming de música e a venda por download de música digital.

O lucro fácil ocasionado pela mudança da matriz do formato de venda ocorrido com a retirada de cena do vinil para a entrada de um produto industrialmente e comercialmente mais barato, o CD, fez, de fato, o vinil, quase sumir da face da Terra, mas, ele não morreu e hoje dá muito lucro para a própria indústria que tentou extingui-lo! Este é o grande paradoxo da indústria fonográfica atual. E, obviamente, vocês já conhecem o que aconteceu com o vinil, particularmente após o fim da primeira década dos anos 2000: a sua volta triunfal e sendo a sua vendagem uma das maiores obtenções de lucros da indústria de música recente.

* Ripar é o processo de copiar um CD de áudio para o computador. Durante este processo, comprime-se cada uma das musicas que são armazenadas num computador ou player de música digital num formato que pode ser Windows Media Audio (WMA) MP3, AAC (formato padrão da Apple) ou outros.

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