Quantos vinis são vendidos no Brasil e há empecilhos para que as vendas aumentem?

Este artigo foi originalmente escrito em junho de 2016, porém, passado 20 meses (atualizado em 15 fevereiro de 2018) seu conteúdo não mudou drasticamente e mostra o quanto ainda estamos estagnados em matéria de mercado de discos. A mudança mais significativa nos últimos 20 meses foi que na escrita original a Vinil Brasil (fábrica de discos) ainda não estava em funcionamento. O resto, excetuando uma pequena baixa no dólar de junho de 2016 para fevereiro de 2018 continua praticamente idêntico. Vale a pena conferir a opinião do UV sobre este mercado brasileiro de vinil.

Abaixo o artigo atualizado:

Mas antes quer saber o que faz o preço dos discos? Clique AQUI e veja a opinião do UV

Infelizmente, como por exemplo nos EUA, Alemanha e Itália, não temos estatísticas sobre as vendas de vinil. Como ilustração para entendermos o desenvolvimento do vinil em outros países, na Itália a FIMI (Federazione Industria Musicale Italiana) até faz o ranqueamento semanal dos mais vendidos. A ABPD (Associação Brasileira dos Produtores de Discos  – agora denominada Pro-Música – Produtores Fonográficos Associados) sequer menciona as vendas de vinil nas suas tabelas e estudos sobre o mercado fonográfico e, muito menos, faz menção dos disquinhos pretos na sua página.

Um grande exemplo do que foi dito acima está na ferramenta para a busca dos ‘Certificados” (discos de ouro, platina e etc) existentes na página, onde o vinil sequer é citado:

Esta situação da indústria brasileira pode nos fazer pensar sobre três questões. A primeira é que o número de vendas de vinil seja, de fato, incipiente e difícil de calcular; a segunda é que esta indústria ainda não conseguiu compreender a volta do vinil e a terceira é que ex-ABPD (agora Pro-Música) tem uma representatividade na realidade brazuca do mercado de música que não engloba toda a heterogeneidade deste seguimento.

Então, vamos lá, tentar entender estes três itens, mas começando de trás para frente:

O terceiro item é um fato importante para compreendermos os números do vinil brasileiro. A Pro-Música é uma associação que nos dias de hoje não tem uma amplitude capaz de compreender totalmente a complexidade do mercado de música, pois ela se atém apenas em 6 gravadoras (quando este artigo foi escrito originalmente em junho de 2016 eram 09 afiliadas) e não alcança os selos independentes e, ate mesmo grandes, como Biscoito Fino, por exemplo – os independentes têm uma associação em separado – ABMI (Associação Brasileira da Música Independente).

Gravadoras afiliadas atualmente:

  • MK Music (especialista no segmento gospel)
  • Music Brokers (especialista em coleções e coletâneas)
  • Som Livre (música em geral)
  • Sony Music (música em geral)
  • Universal (música em geral)
  • Warner (música em geral)

Gravadoras afiliadas na primeira versão do artigo (06/2016):

  • MK Music (especialista no segmento gospel)
  • Music Brokers (especialista em coleções e coletâneas)
  • Paulinas COMEP (música católica)
  • Line Records (especialista no segmento gospel)
  • Som Livre (música em geral)
  • Sony Music (música em geral)
  • Universal (música em geral)
  • Walt Disney Records (especialista em obras de filmes e personagens do conglomerado Walt Disney)
  • Warner (música em geral)

 

O segundo item é sobre a indústria fonográfica em geral.

O fenômeno da música na atualidade é extremamente diversificado, complexo e o formato de comércio e distribuição vai além do streaming, downloads e vendas de CDs e DVDs em lojas físicas e pela Internet. Como exemplo desta afirmativa existe a comercialização de mídias a preços baixíssimos, quando não distribuídas gratuitamente, onde o lucro obtido pelo artista não advém da venda e sim da promoção que este ato alcança para obter vantagens financeiras no momento dos shows. Outro exemplo é o próprio vinil. O bolachão está, de fato, à margem no mercado brasileiro. Nas Terras Tupiniquins há poucas gravadoras que realmente investem no Vinil.

Esta indústria ainda não conseguiu compreender totalmente a “volta do vinil” e a representatividade econômica deste mercado – para entender mais sobre a “volta do vinil” leia nossos artigos “A Nova Era do Vinil – parte 1: o enraizamento do vinil na cultura da música e no mercado fonográfico” e “A Nova Era do Vinil – Parte 2: dilemas e obstáculos para a longevidade da cultura do vinil“. Todavia, existem fatores agravantes na realidade brasileira que influenciam este comércio de discos: a falta de fábricas de vinil e de toca-discos suficientes para atenderem o mercado e o dólar alto.

Como todos sabem, existem apenas duas fábricas de vinil no Brasil (Polysom e Vinil Brasil) e ambas não conseguem dar conta deste mercado, pois segundo as próprias fábricas, a produção da Polysom para 2016 foi por volta de 150 mil discos e a Vinil Brasil poderá produzir até 300 mil (quando estiver em funcionamento total). Isso nos dá a conta de apenas 450 mil discos por ano! Número este que ainda não absorverá a demanda brasileira (falaremos mais sobre isso abaixo). Sem contar o dólar alto e os impostos!

Com o dólar alto a importação de vinil passou a ser um grande problema, bem como, a importação dos equipamentos de som e acessórios para os disquinhos. Lembramos que não existe mais fábrica brasileira de toca-discos – todos são importados, sem exceção!

As bolachas precisam ser tocadas em players que faz tempo que não são fabricados no Brasil. Portanto, a reposição de toca-discos é um fator que encarece e dificulta este mercado. Por exemplo: um toca discos Pro-Ject Essential 2 (uma das marcas mais tradicionais hoje em dia) que custa 299 Dólares, com a cotação mais ou menos de 3,28 Reais por Dólar, mais 60% de imposto sobre importação, IOF (o valor varia de estado para estado, neste nosso exemplo os cálculos são feitos de acordo com os impostos dos estado de São Paulo) e frete:

Na conversão simples, este mesmo toca-discos sairia por R$ 1280,79! Uma diferença enorme!

O dólar alto  e impostos sobre os discos, nem se fala. Por exemplo, o disco do Eric Clapton (I Still Do) que custa 28,49 Dólares na Amazon, caso comprado diretamente, sairá a R$256,70. Se achar e comprar em lojas brasileiras, só Deus sabe o preço …

Toca-discos, discos e acessórios que dependem do preço do dólar, somados aos impostos de importação e IOF estão ajudando profundamente para que as vendas de vinil não cresçam ainda mais no país. E isto afeta não apenas os consumidores, mas toda uma cadeia de mercado que emprega pessoas e sustenta famílias!

Então, vamos para o primeiro item referido acima:

O número de vendas de vinis novos no Brasil é mesmo muito pequeno perto da demanda para compra de discos que existe e frente a outros países. Para se ter uma ideia, nos anos 80 e 90 já fomos considerados como um dos maiores mercados de discos do mundo!

Como não temos dados suficientes para dizer exatamente a conta (não existem estatísticas oficias) podemos partir do princípio que as fábricas em funcionamento produziram mais de 250 mil cópias em 2017 (a Polysom com a carga total e a Vinil Brasil nos seus primeiros meses de funcionamento); podemos também estimar que foram importados menos da metade deste número, assim, temos, mais ou menos 350 mil vinis novos vendidos no país em 2017! Esse número pode variar para cima ou para baixo dependendo da estimativa de importação.

Quanto aos vinis usados, aí sim, podemos ir a números bem maiores. Calculando pelo número de Feiras de Vinil que já vimos pipocar publicidade pela web (fizemos uma conta rápida aqui e lembramos de, pelo menos, umas 30 cidades fazendo feira – de Caruaru a São Paulo) mais as vendas pela Internet e lojas físicas, o número deste mercado pode chegar a mais de 500 mil vinis comercializados (um cálculo bem por baixo!)! Para se ter uma ideia o Mercado Livre em 2014 e repetindo em 2015 disse que a parte de discos de vinil era responsável por mais de 25% de toda a área de comércio de artigos musicais representando a maior fatia de envolvimento desta comercialização.

Veja nossa análise sobre o Mercado Livre (O mercado de vinil brasileiro: o caso Mercado Livre – Levantamento 2017) clicando aqui

Só no Disgogs tem mais de 116 mil discos brasileiros que podem ser para vendas ou não.

Pois é, mediante isso, podemos dizer, sem sombras de dúvidas que o Brasil comercializou mais de 800 mil álbuns (novos e usados) e esse número pode ser maior ainda mediante a falta de estatística.

A Pro-Música nos mostra no balanço de 2016 (último balanço apresentado) as seguintes observações:

“O mercado de música gravada no Brasil, após quase três anos de crescimento contínuo voltou a sofrer uma pequena redução de 2,8%, influenciado principalmente por acentuado declínio nas vendas físicas de CDs e DVDs musicais, cujo mercado varejista demonstra sentir com mais força os efeitos da crise econômica por que passa o País. Em compensação, por outro lado a área digital continuou a apresentar elevação na casa dos dois dígitos, tendo crescido 23,0% em 2016, comparado ao ano anterior. Determinante para o crescimento do mercado de música digital no Brasil, assim como em praticamente todo o mundo, o segmento de streaming interativo cresceu 52,4%. A arrecadação de execução pública de produtores e intérpretes (artistas e músicos) manteve-se praticamente estável (-2,8%), e os recursos obtidos com sincronização caíram 8,4%.”
Veja a íntegra do documento AQUI

O disco de vinil é exatamente o contrário da tendência de queda dos CDs e DVDs musicais. Pelo que a Polysom anuncia (e olhe que ela não divulga todos os seus números) as vendas de vinil vem subindo praticamente estes mesmos 15% ao ano ou mais!

Uma coisa é certa, o brasileiro reencontrou o vinil e hoje não larga mão dele! Mas, que este mercado precisa de um empurrãozinho… Ah! Isso precisa!

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