Fita K7 e vinil seria um saudosismo ou uma coisa moderninha hipster? Não! Definitivamente, nada disso!

Aqui no Portal do UV e no nosso Facebook falamos 100% de música analógica e, por isso, vira e mexe nos remetemos aos anos anteriores ao início deste século e nos deparamos, vez ou outra, com comentários saudosistas destes tempos. Topamos também com alguns artigos da grande mídia, blogs e sites de notícias alternativos que às vezes retratam o vinil e o K7 como modismo, saudosismo e coisas congêneres. Não somos contra os saudosistas ou aqueles que curtem coisas de uma certa época, muito pelo contrário, somos a favor dos desejos positivos das pessoas. Além disso, têm aqueles comentários e artigos que vão para o lado oposto e dizem que a fitinha e o disquinho preto de plástico  são modismos dos “moderninhos” hispter. Ora bolas, isso tudo não é muito justo, pois, não enquadra, define e nem localiza o fã do vinil e/ou do K7 totalmente.

Mas, qual o motivo de usarmos um termo que advém da palavra justiça? Não parece um pouco pesado? Não! Definitivamente, não!

Antes de qualquer coisa é bom deixarmos bem claro: não somos contra as pessoas passarem a ter um estilo ou modo de vida. Cada um na sua! E sem preconceito!

Então, dado o recado, vamos lá defender nosso pensamento:

Primeiro, porque o vinil e a fitinha não são sinônimos de tecnologias do passado. São tecnologias que ultrapassam os tempos, isso sim! Como um ventilador ou as tecnologias para escrita, como lápis e canetas, por exemplo. E vão nos dizer que quem usa ventilador é um saudosista de uma tecnologia do ano 1882? (O primeiro ventilador da história foi criado entre 1882 e 1886, pelo engenheiro americano Schuyler Skaats Wheeler).

ventilador

Tecnologias que nasceram no passado – mesmo que remoto – e têm serventia nos dias de hoje nos mostram que o objeto tecnológico pode ser atemporal, ter muito “serviço” para ele e continuar adequado às especificidades, necessidades e características do mundo atual. O lápis e a caneta podem ser substituídos pelo computador? Sim (até por um smartphone)! O ventilador pode ser substituído pelo ar condicionado? Também, sim! Mas, todos podem ser perfeitamente encaixáveis na vida moderna e nem por isso são chamados de ultrapassados ou quem os usam é um saudosista ou pessoa antiquada. Ventilador, caneta e lápis convivem perfeitamente com seus “parentes” mais modernos, têm suas utilidades, peculiaridades e não existe problema algum ou rotulação sobre quem os emprega.

Mas, alguém poderia dizer que o vinil e o K7 estão muito mais para uma associação ao uso de  uma máquina de escrever e o autor deste artigo diria: definitivamente, também, não! A máquina de escrever foi de fato trocada pelo computador ou suas funções foram absorvidas pelos softwares editores de textos e, apesar das duas mídias de música que aqui são retratadas terem sido alvos de ações para substituí-las, aos poucos foram percebendo que suas características e qualidades não são (ou não foram) passíveis de transferências para as mídias digitais .

Você até pode usar uma máquina datilográfica, mas seu trabalho não terá a mesma apresentação e possibilidades de designs e facilidades que o computador pode ofertar – o trabalho com certeza sairá melhor se feito num editor de texto. Em contrapartida, o vinil e a fita podem oferecer situações que outras mídias não carregam. Por exemplo, no vinil a questão óbvia da informação gráfica contida no seu tamanho e a fita pode ser um diferencial no mercado que sempre procura situações alternativas para ampliar o consumo e possibilitar novos negócios. A máquina de escrever não carrega benefício algum frente ao computador, nem incrementa o consumo e a qualidade sonora da música analógica ou digital diferem apenas nas questões óbvias do manejo e do capricho na construção do master, na comercialização ou oferta da música e isso independe de qual tipo for.

maquina-de-escrever

Segundo, ser parte de algo que nos remete a uma subcultura de classe média urbana – como os hipster são normalmente conceituados – fazem chamar os adeptos do vinil de “moderninhos” . Essa é outra grande injustiça, afinal, quem conhece a história do vinil sabe que ele nunca saiu de cena, apenas saiu dos noticiários por um tempo e seus adeptos vieram antes deste papo de hipster existir. Em suma, gostar de vinil não é uma coisa rotulável como moderna, futurística ou ultrapassada.

Terceiro, é fato que existem os saudosistas, os hipster e pessoas que gostam de antiguidades e são adoradores de vinil e/ou fitas, mas não representam o universo dos fãs destes artefatos musicais. São apenas mais tipos de pessoas que gostam dos bolachões e/ou dos cassetes, nada além disso! E o bacana é podermos saber que existem várias “tribos” e estilos de pessoas que gostam dos formatos citados. Isso é muito positivo e mostra que os vinis e as fitinhas tem um público bastante diversificado.

A fita cassete tem um valor (de negócios e lucro) muito incipiente nesta grande indústria da música. Se o vinil é visto como uma mídia física com pouca distribuição frente a outros formatos, imaginem a fita? Mas, não podemos e nem devemos universalizar o uso destas mídias como saudosismo; na outra ponta, como uma “coisa moderninha” ou como um modismo passageiro, simplesmente pelo tamanho do seu mercado (o do vinil já pode ser considerado como mais vultuoso) ou como foram subjugadas pela indústria fonográfica convencional a partir do final dos anos 90 (as gravadoras e selos alternativos trataram essas mídias de forma bem diferente ao longo dos tempos – com muito mais respeito e simpatia – e hoje as grandes gravadoras e selos já reveem este mercado). O que precisamos ter em mente – e neste ponto o jornalismo da grande imprensa bem podia ajudar – é que devemos viver no mundo da diversidade, ou seja, podermos conviver com vários formatos. Quem gosta de vinil, tranquilo, que use seu vinil; quem gosta da fitinha, de boas, use sua fitinha, quem gosta de música digital, use e abuse do seu tipo favorito e quem gosta de qualquer um, que legal, curta o que quiser! O que não podemos é rotular ou tipificar os diferentes gostos em situações que não representam o universo dos adeptos. Isso só gera malefícios para a economia da música analógica e, por isso, acaba atrapalhando os investimentos que tanto precisamos nestes dois formatos de armazenamento de música. Como ilustração podemos imaginar a hipótese de um possível investidor pensar que a fita é um modismo passageiro, dificilmente ele investirá em algum negócio para essa mídia…

Além disso tudo, vinil tem uma representatividade financeira muito grande para o artista. A grande RIAA (The Recording Industry Association of America) nos últimos tempos vem mostrando que este é o formato que mais gera lucro para quem faz música e a vende de alguma forma. Percentualmente, por tipo de mídia, o maior lucro não advém do streaming, do CD ou da venda de MP3 e sim dos vinis! É no bolachão que o artista mais lucra! Assim, quando compramos um vinil estamos ajudando de forma crescente o artista que gostamos –  e quem, quando pode, não gosta de retribuir o seu artista favorito com algo?

Portanto, a presença do vinil e/ou da fita K7 nas lojas e lares brasileiros não pode ser vista como uma forma de retorno momentâneo e saudosista aos anos 80 ou 90, nem como um modismo hispster e muito menos como uma onda passageira – o vinil cresce em consumo e venda desde 2000 ininterruptamente. Estas situações são inverdades que nada ajudam os fãs, artistas e a própria cadeia comercial e industrial da música. Vinil e fita nada mais são que a oferta de venda de música, cada uma com suas particularidades e ponto! E esta oferta torna-se boa e saudável quando diversificada para agradar qualquer gosto, seja do comprador/usuário da mídia, dos artistas, selos e/ou gravadoras, sem contar que é mais uma possibilidade para o lojista/vendedor. Imaginemos um mundo onde poderemos escutar nossas músicas do jeito que apreciamos, nos aparelhos e sonoridades que desejamos? Isso sim é o mundo ideal e estamos quase lá!

Viva a diversidade!