Frequentar lojas de discos? Isso é bacana! Podes crer!

Nos anos anteriores ao início do Séc XXI, frequentar lojas de discos era o maior barato. As pessoas não iam apenas para ver as novidades em matéria de álbuns, mas também iam para jogar conversa fora, faziam ponto de encontro entre amigos e falavam de música, falavam muito de música! Era o point de muitas gerações, principalmente nos finais da tarde e sábados pela manhã.

Quem viveu isso sabe o sentimento que refere esse parágrafo acima. Era a magia da música em um de seus templos: as lojas de discos!

Dos anos 2000 em diante essas lojas começaram a fechar em decorrência da crise que a entrada da música digital criou no mercado fonográfico. Houve uma troca na matriz do formato de compra ou aquisição da melodia gravada. Dos discos de vinil para os CDs e depois dos CDs para os downloads ilegais de arquivos musicais ou a pirataria dos álbuns em Compact Disc graváveis. Ninguém precisava mais sair de casa para obter o som que queria, bastava um computador ou estar em qualquer lugar nas ruas para que alguém ofertasse um disco pirata.

Sabemos que a fita K7 já era pirateada e até com o vinil haviam casos, mas o montante não chegava a incomodar a indústria fonográfica e muito menos lojistas.

O fato é que essa pirataria digital trouxe enormes prejuízos para a indústria e o comércio de discos. Selos e gravadoras faliram e incontáveis lojas fecharam a ponto de quase extinguirem este tipo de comércio. Famílias e mais famílias perderam seu ganha pão, seja como o proprietário da loja, sejam os empregados. Praticamente um modelo de comércio de muitos e muitos anos passava a sumir de cena.

Muitos vão dizer que isso faz parte da evolução da economia e da troca natural da tecnologia com os avanços das novas descobertas e a implantação de novas formas de trabalho. Obviamente, isso é normal! Aconteceu com o sistema financeiro quando os softwares e máquinas computacionais passaram a fazer o trabalho que um humano exercia, com as fábricas em geral com a entrada da robótica e vários e vários outros exemplos. Porém, com a música o ocorrido foi diferente, pois o que foi inventado para trazer mais lucro e consequentemente melhorar a cadeia econômica e do trabalho para a indústria fonográfica acabou dizimando com ela mesma – não foi uma mudança no formato, como foi com os bancos, por exemplo, mas quase o seu fim!

Não foram somente perdas de postos de trabalho, foi o fechamento quase integral de todo um sistema cultural e econômico. Lojas fechavam, fábricas idem, gravadoras faliam, artistas perdiam uma forma de ganhar dinheiro, empregados eram demitidos e os fãs dos discos perdiam seus locais de encontro…

Como consequência disso, apenas as gravadoras mais ricas conseguiram sobreviver. Hoje temos apenas 3 grandes gravadoras no mundo todo (Sony, Universal e Warner) e nomes importantes deste cenário foram fundidos nestas 3 grandes por aquisição ou, simplesmente, faliram e sumiram do mapa. Sem contar as gravadoras locais que praticamente tiveram seu modelo de negócios inviável. Imaginem as lojas?

Porém, isso tudo hoje é história! Certo que é uma história para não repetirmos e aprendermos com ela, contudo, marcou para sempre a venda de música e as pessoas envolvidas!

Todavia, dizem que o mundo dá voltas e, neste caso, vem dando mesmo! O que era para ter desaparecido, paradoxalmente, é quem está salvando essa economia da música: os discos de vinil!

O aumento das vendas e, logicamente de consumidores, criou um clima propício para o ressurgimento do comércio varejista de discos ou o incremento daqueles pouquíssimos sobreviventes. Isso vem gerando maior abertura de postos de trabalho e a melhoria na forma que se compreende a música. As pessoas estão voltando a “bater ponto” nestes empreendimentos comerciais e o papo sobre som vem voltando paulatinamente a um dos seus templos: as lojas!

E qual a razão disso ser importante?

Com as músicas voltadas eminentemente para o individual (os MP3 players e o streaming), o contato tête-à-tête com outros amantes das melodias praticamente tinha sido jogado para outros locais (alguns já eram usados antes, como as mesas de bar, por exemplo) e diminuída a sua discussão entre os indivíduos e, por isso, sua função social passou a sofrer algumas modificações.

Não vamos entrar aqui na sociologia da música, mas é importante  rapidamente compreendermos o que é a função social e o que gera nas pessoas: “a atividade coletiva permite ao indivíduo interpretar os diversos significados da música de maneira independente e individual, sem com isso afetar a integridade do fazer musical coletivo. E, é claro, ao reforçar a identidade social, reforça-se também a identidade individual. (ILARI, 2007). Ou seja, falar de música é importante, colocar seu ponto de vista, idem, pois, isso tudo gera conhecimentos que vão moldando e recriando a forma como pensamos a música e como ela nos dá identidade.

Sem as lojas ficamos muito à mercê do que recebemos como informação sem a possibilidade do diálogo (os noticiários por exemplo e no formato de hoje, os editores dos serviços de streaming). Não há interação para a troca de ideias. O que é dito é apenas avaliado por aquele que recebe a informação sem a mínima possibilidade de dar seu retorno.

Não que as lojas resolvem este problema da possibilidade ou impossibilidade do diálogo, mas elas amenizam. Elas ajudam a disseminar o encontro entre pessoas no assunto específico que é a música!

É óbvio que um MP3 player recheado de músicas é bom, um celular com um serviço de streaming na ponta do dedo, idem. Não queremos tirar essa praticidade da vida, apenas queremos mostrar que ao frequentar uma loja de discos nós estamos ajudando a disseminar a música a partir do diálogo e da troca de informações entre pessoas que gostam deste assunto.

Nos dias de hoje para solucionar a falta do diálogo, as tentativas estão nos blogs, nas publicações das playlists dos usuários nos serviços de streaming e nas redes sociais, porém, estes formatos estão numa agulha no palheiro que é a Internet. Até você achar aquele que te representa e, assim, poder trocar uma ideia via chat, nos fóruns de discussão ou respondendo os posts, é difícil. Numa loja de discos, você já encontra interlocutores na hora, no exato momento que chega à ela, nem que sejam os funcionários e/ou o proprietário. É um papo que flui, que adentra horas e horas.

E para quem gosta do comércio digital, as lojas virtuais estão aí firmes e fortes e com certeza, pela experiência que temos, seus proprietários e funcionários estão atentos às suas trocas de mensagens. Ou seja, na loja  física ou na loja virtual você será ouvido! E isso é muito importante e faz com que seu ponto de vista seja levado em conta, tanto é que muitas destas lojas trabalham com serviços de encomendas para agradar seus frequentadores. No streaming isso não é possível – uma pessoa não consegue solicitar um determinado álbum e no download de MP3 você sabe como fazer, apenas solicitamos que não haja ilegalmente… E também acrescentamos as feiras de discos e os sebos – ambos locais que são essenciais para falarmos do nosso assunto predileto: os discos e suas músicas!

Usando uma expressão da época áurea das lojas de discos, frequentar um local destes é o “supra sumo” da troca de ideias, do conhecer, do dialogar e do trato aconchegante envolto em discos e mais discos, sem contar que ajuda a gerar riqueza e aumentar a oferta de postos de trabalho…

Falamos isso tudo para mostrar o quanto é legal frequentar uma loja de discos e como ela é importante para disseminar a boa música e até mesmo fazer novas amizades. Os “das antigas” sabem disso e, com certeza, vão se familiarizar com esta Conversa de Vinil de hoje.

Vida longa aos discos de vinil e às suas lojas!

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Todo domingo às 19h na Rádio UFS FM 92,1 tem o programa Conversa de Vinil
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