O lado perverso da baixa venda de discos: o aumento do preço dos ingressos de shows e concertos

Nos últimos anos começamos a perceber um aumento vertiginoso no preço dos ingressos dos shows e concertos espalhados por aí. Essa prerrogativa não é especificamente brasileira. Está no mundo todo!

Mas quais os fatores que geraram estes aumentos que em alguns casos nos fazem pensar que são abusivos?

Há vários fatores, entre eles e, talvez, o principal, esteja ligado à pirataria em MP3 e à disseminação do streaming…

Vamos ao passado recente para verificarmos isso. Mas, avisando que estas afirmativas vêm de observações empíricas e não de coletas em tabelas estatísticas. Porém, quando o bolso é afetado não precisamos de muitas estatísticas para percebermos se algo aumentou ou não…

Numa entrevista de 16 de março de 2001 para a Folha de São Paulo, Marisa Monte é interpelada pela repórter Cristina Carola sobre as vendas de discos (leia e entrevista completa AQUI):

Folha – Você já sofreu pressão de gravadoras?
Marisa – Não. O trabalho deles é vender e distribuir, não é criar nem fazer o trabalho do artista. Eles têm consciência disso, sabem disso e adoram encontrar um artista que faça o seu trabalho.

Folha – Nunca exigiram que você vendesse discos?
Marisa – Meus trabalhos sempre venderam muito. Eu trabalho muito, ralo para caramba, mas não tenho o menor controle sobre a aceitação que o meu trabalho vai ter. Mas tenho o controle sobre a minha dedicação e o compromisso com a arte que eu tenho no meu trabalho. Venda ou não venda, eu estou feliz.

Ou seja, nas décadas onde discos eram ouro as gravadoras pressionavam os artistas para venderem seus discos. Isso era tão natural que os repórteres sempre indagavam sobre a relação de interferência entre gravadoras e artistas e os shows eram muitas vezes realizados como um merchandising dos discos.

Faziam shows para venderem discos!

Era o natural da indústria fonográfica! E muitos shows não eram tão caros como nos dias de hoje, pois, havia um fator que barateava este empreendimento: a venda de discos! Como exemplo, nos anos 90 a EMI lucrou com a pequena vida dos Mamonas Assassinas mais de 80 milhões de Reais e especula-se que vendiam 100 mil cópias de seu único álbum a cada dois dias! Na atualidade, não existe artista brasileiro que em curto e médio prazo dê às gravadoras tamanho lucro. Nem Anitta!

Para aumentar o entendimento, leiam também esta matéria de Luiz Fernando Vianna e Thiago Ney da Folha de São Paulo de 06/04/2006

Com o advento da pirataria e nos dias atuais com o streaming, a venda de discos foi ribanceira à baixo. Caia a maior fonte de lucros de gravadoras e muitos artistas: o lucro com a venda de discos. Todavia, músicos, cantores(as), bandas, conjuntos e etc precisam sobreviver e pagar suas despesas (que são muitas) e ao perderem uma de suas maiores fontes de renda, onde poderiam procurar rendimentos para pagarem suas obrigações? Nos shows!

E olhem que muitos artistas e conjuntos diminuíram seus cachês para poderem viabilizar seus eventos. Do contrário, a máxima de que “o artista quer estar onde o povo está” estaria sendo paulatinamente jogada às traças…

Um fato curioso que ocorreu nos anos 90 e início dos anos 2000 com a grande crise brasileira foi a opção de alguns artistas saírem em turnê com apenas voz e violão. Isso barateava os custos com os shows e efetuava a grande saída financeira de muitos que era a promoção de seus discos.

Para terem uma ideia, nos anos 80 e 90 era comum um grande artista brasileiro vender 1 milhão de cópias de discos. Hoje, isso só ocorre com artistas que vendem mundialmente como Rihanna, Ed Sheeran e outros pouquíssimos do calibre – e é raro acontecer. Outro fator preponderante é o streaming. Veja abaixo a tabela que a Revista Rolling Stones fez sobre o pagamento de streaming a artistas*:

1 – Napster – US$ 0,0167 por stream
2 – Tidal – US$ 0,0110 por stream
3 – Apple Music – US$ 0,0064 por stream
4 – Google Play Music – US$ 0,0059 por stream
5 – Deezer – US$ 0,0056 por stream
6 – Spotify – US$ 0,0038 por stream
7 – Pandora – US$ 0,0011 por stream
8 – YouTube – US$ 0,0006 por stream

*Para ganhar pela música ela precisa ser tocada pelo menos 30 segundos. Antes disso, não é monetizada.

Isso quer dizer que para um artista ganhar 1000 dólares por música, ela precisa ser tocada mais de 30 segundos 155.555 mil vezes num preço médio que achamos de 0,0063875 centavos de dólar. Para ganhar por um álbum que normalmente tem em média 10 músicas, basta multiplicarmos por 10 e o artistas precisará que escutem 1 milhão 555 mil e 550 vezes as melodias contidas no álbum…

E para conseguirem tamanho número de transmissões precisam investir muito em mídia e propaganda. É um dinheiro e esforços danados sendo jogados para alcançarem lucros! Portanto, não é para todos…

Imaginem hoje Thriller de Michael Jackson, que custou a Quincy Jones 750 mil dólares para produzir o lendário álbum? Quanto de streaming não teria que ser executado para bancar só a produção? Seria uma jogada muito arriscada. E fizemos a conta. Somente para pagar o investimento precisaria que as melodias deste álbum fossem executadas 117.416.829 vezes – depois disso seria o lucro. Tudo bem que Ed Sheeran conseguiu mais de 3 bilhões de transmissões no Spotify em 2017, mas ele faz parte de um seleto grupo de artistas e grupos que não chegam a 40 neste planeta Terra e não tem nenhum brasileiro! Inclusive, Ed Sheeran é também um dos campeões de vendas de discos em 2017. Foram vendidos mais de 4 milhões de álbuns em todo mundo (nesta soma estão os CDs, discos de vinil e downloads de álbuns inteiros), Mas reparem, vender 4 milhões de discos e bilhões de transmissões é para artistas com alcance global e nesta lista não existe artista brasileiro… É a mundialização da cultura em grande escala!

E então, caros leitores e leitoras? O show mudou de agente de publicidade para venda de discos para a principal fonte de renda de muitos artistas. Foi-se o dinheirinho (ou dinheirão, dependendo da quantidade de discos vendidos) que caia nas contas dos artistas. E, por isso a consequência drástica: o aumento dos preços dos ingressos!

Sabemos que na maioria dos casos os eventos dos artistas são realizados por empresários e/ou firmas do ramo de entretenimento, todavia, muitos artistas e grupos têm seus músicos próprios e precisam pagá-los e também cumprirem seus deveres financeiros com os impostos, direitos autorais, pessoal de apoio e etc, além de investirem em instrumentos musicais e coisas do gênero. Um artista ou um conjunto é basicamente uma empresa!

E por onde poderão arcar com estes custos? Hoje em dia, sobretudo, do cachê, pois como vimos, lucrar com discos e streaming é muito difícil.

Com isso os artistas e bandas ficam na berlinda para conseguirem uma matemática que dê para equilibrarem rendimentos e poderem dar condições para que os preços dos seus shows fiquem mais em conta. É uma luta tremenda!

Na atualidade para um show ser barato ele precisa de vários patrocínios e, mesmo assim, muitas vezes, para ser viável tem que ser realizado em grandes espaços como ao ar livre, estádios de futebol e ginásios. Contudo, a experiência de ver e ouvir o show nestes espaços alternativos – já que não são teatros e salas de concertos – é muito ruim. Mas fazer o que? É essa a saída para viabilizar financeiramente alguns eventos.

Infelizmente, enquanto a indústria fonográfica funcionar desse jeito não há muita luz no fim do túnel. A tendência são os shows e concertos ficarem cada vez mais caros e existir uma dependência de verbas governamentais e de empresas para ajudar no barateamento das produções. Sem essas verbas, grandes artistas serão para poucos e artistas iniciantes ou do meio alternativo sofrerão profundamente para terem públicos para suas obras. Sem estes apoios, a cultura fica cada vez mais elitizada!

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