R.I.P: encartes e extras nas músicas vendidas pela Internet

O UV é especialista em música analógica, especialmente, discos de vinil, porém, não dá para pensar e falar sobre indústria fonográfica nos dias de hoje fingindo que o formato digital não existe. Agir assim é não entender da história recente da música, do mercado fonográfico e viver do passado.

O formato digital chegou juntamente com os CDs. Foi o grande acontecimento a partir de meados dos anos 80. Essa história todo mundo sabe: vieram os CDs, “morreram” os discos de vinil, veio o MP3 e etc e etc até que pararam de desenvolver o MP3, o vinil está mais vivo do que nunca (e jamais morreu) e o streaming é a crista da onda. Ok, ok! Não precisamos nos alongar nessa conversa.

Mas, se você quiser saber mais:
1987, 1996 e 1997: nascimento do Compact Disc no Brasil, o fim(?) do Vinil e a morte do CD
Início dos anos 2000: quando as gravadoras quase morreram

O que queremos trazer aqui nem é sobre a música em si, e sim sobre o que está em volta da música vendida: capas, encartes e quaisquer materiais de design, embalagens e informações extras que tragam um conhecimento a mais sobre a música que foi comprada.

Na vivência no UV, trocando ideias nas nossas redes sociais, já vimos pessoas dizerem que estes extras não acrescentem nada. Querem é a música e somente a música, portanto, um MP3 “pelado’ não é problema. Beleza pura! Cada um com seus gostos, necessidades e desejos. Não vamos ser nós que vamos dizer se isso é certo ou errado. Pensamos assim: cada um na sua e use a mídia de preferência para escutar sua música. Sem policiamento! Sem juízo de valor!

Explicado isso tudo, vamos ao que realmente pensamos. O álbum quando é realmente um álbum e não uma junção de melodias requer informações extras como, onde foi gravado, data, cidade, músicos envolvidos, pessoal técnico, letras e muitos querem mais que isso. Querem fotos, escritos, artigos explicativos, ponto de vista do(s) autor(s)/compositor(s), do produtor e várias outras informações.

Um álbum não é somente um conjunto de canções. Ele é um trabalho multidisciplinar que envolve não apenas músicos e técnicos mas, também, designers, fotógrafos, desenhistas, artistas plásticos, escritores e etc.

Nós costumamos comparar a música com o cinema. Todo filme no final tem os tais créditos. Pode ser que muitos nem deem bola pra isso, mas quem participou quer seu nomezinho lá e ele, com certeza, estará passando rapidinho no término do vídeo.

Na música digital que está na Internet isso não existe. Contudo, sabemos: nem sempre os discos (seja vinil, CD ou DVD) vêm com as informações corretas e integrais. Há muitos discos sem ano, local, nome dos músicos e etc. Mas sempre terá alguma informação. Nessa música digital na Internet, simplesmente, não temos qualquer informação. “Nenhuminha”!

Para muitos isso pode ser bobagem, mas tem um contingente de pessoas que vai do fã ao pesquisador que precisa dessas informações extras. Quem estuda algo ligado à música, como poderá referenciar uma obra? Um livro, um artigo, todo mundo sabe como faz. Mas como achamos o ano, o autor (ou autores), cidade e etc de uma música? É uma empreitada praticamente impossível.

Conseguir extras ou quaisquer informações na Internet sobre algum álbum, só o Santo Google pode lhe dar e nem sempre existe um site ou hotsite falando sobre eles.

Se você coloca o nome de uma música na Internet que vários cantores ou grupos já cantaram e gravaram, será  a maior dificuldade para chegar àquele que realmente foi o pioneiro e seus compositores. Na Era da Informação, sobre música na Internet em geral, a informação é zero! No streaming, então? Nem se fala!

Mas convenhamos, você está num site ou aplicativo de streaming e quer um plus sobre o disco e para isso tem que ir ao Google? Ou você comprou por download um álbum bacana e quer mais sobre ele e tem, também, que ir ao Google? Ah! Tenha Santa Paciência!

Mas vamos para outro público. Aquele que nem é um fã ardoroso de um ou uma artista (ou grupo) ou um pesquisador. É alguém que gosta da música e pronto! Será que este alguém não quer uma “fotinha” a mais do álbum, do cantor, da cantora ou do conjunto? Um encartezinho extra? Uma informaçãozinha a mais?

Com certeza quer! E esse querer é bacana, pois, de uma certa forma, força a produção de  conteúdo para dentro da obra. Vamos para outro patamar da vivência com a criação e além da música! Vamos a uma arte mais completa, que envolve um trabalho em conjunto, com profissionais de várias áreas e para quem “pega” esse material reunido, tem um outro olhar da obra musical e esta se torna muito mais criativa, complexa e rica.

Infelizmente, o iTunes LP era um dos últimos locais que trazia estes extras para a venda de música digital na Web. Recentemente, a Apple anunciou que vai descontinuá-lo. O cara comprava (via download) um álbum ou single e vinha junto uma gama de informações extras. Como se fosse um LP, só que em formato digital, com encartes, fotos, letras e etc. Muita gente ficava feliz com isso! Mas, como a própria marca da maçã explicou, os tempos e hábitos são outros e isso não dava mais lucrou ou o contingente de pessoas que utilizavam este serviço não era o suficiente para mantê-lo vivo e aplicar novos esforços. Isso nos faz pensar que a música chegou a uma banalização tão grande que ninguém quer saber do artista? Querem somente escutar a melodia e deu? A gente chega a pensar assim: que tiro foi esse?

Parece que em matéria de música vamos na contramão da informação e isso é um problema, já que a música se torna uma espécie de filha de chocadeira – não sabemos quem é seu pai, sua mãe, seus irmãos…  Ou seja, na música digital na Internet a informação é zero! E isso é ruim, muito ruim! É péssimo para o artista, pois não lhe dá o devido valor pela sua criação ou interpretação e é desagradável para os músicos que acompanharam a melodia já que, sem os devidos créditos, se tornam um “Zé Ninguém”. Para o pesquisador(a) nem se fala – isso é uma tremenda dor de cabeça quando é necessário referenciar a obra.

Por fim, o pior. O álbum que fica na Internet agora é “pelado’ – sem nada  para aumentar nossa experiência com as canções. Sem uma foto, sem letras, sem informações… é uma chatice e uma pobreza!

Para ilustrar e na prática, pegamos o álbum Zé Geraldo: Cidadão 30 e poucos anos num dos serviços de streaming e queríamos respostas para as seguintes perguntas:

  • Quem eram os compositores?
  • Que ano foi feito?
  • Por ser um álbum ao vivo, a captação de som foi onde?

Só fizemos 3 perguntas, pois se perguntássemos muito seria covardia. Vejam com seus próprios olhos (imagens abaixo) que não obtivemos resposta alguma e uma “fotinha” do show? Necas de pitibiriba. A letra de uma música? Jamais!

Por essas e outras coisas preferimos nossos bolachões e na falta deles um CD. Não queremos só a música, queremos muito mais!

 

 

* RIP, ou R.I.P, é a sigla para “Requiescat in pace” expressão em latim que significa “descanse em paz”, em português. RIP é um termo utilizado quando uma pessoa morre, e geralmente está escrito em lápides de países de língua inglesa.

_______

Todo domingo às 19h na Rádio UFS FM 92,1 tem o programa Conversa de Vinil
Você pode escutá-lo pela web em radio.ufs.br ou a partir do podcast, clicando aqui

Quer saber mais sobre o “ressurgimento” do Vinil? Clique aqui!
Quer saber sobre a qualidade sonora do Vinil, do CD, do streaming e do MP3? Clique aqui!
Sobre os toca discos? Clique aqui!
Cuidados com seus discos? Clique aqui!
Como e onde comprar? Clique aqui!

Quer interagir? Utilize a seção contato, clicando AQUI!

Faça o download gratuito do livro Conversa de Vinil: o universo dos discos de vinil ou o adquira no formato papel para ajudar o UV a se manter sem a necessidade de propagandas ou patrocínios clicando AQUI