Brasil duplica sua produção de discos de vinil

Para nós que gostamos do formato vinil, dizer que estamos duplicando nossa produção de novos discos é sinônimo de boa notícia. Afinal, até meados de 2017 nós tínhamos, de fato, uma única fábrica em funcionamento. Agora podemos afirmar que temos duas em plena produção.

Polysom e Vinil Brasil são as duas fábricas brasileiras e ambas construídas sobre maquinário herdado da antiga indústria fonográfica dos anos 90 para baixo. Por serem empreendimentos calcados nas antigas fábricas não quer dizer que tenham qualidade ruim. E isso absolutamente não quer dizer nada, pois, a produção de discos no mundo inteiro até 2016 também era feita dessa forma. Apenas, a partir, do final do referido ano  que começaram a surgir novos maquinários para esta indústria e este fato vem dando um maior fôlego para a confecção de discos que até então necessitava de achados de restos de prensas e outros apetrechos mecânicos para que se realizasse.

Duas fábricas nos indicam mais ou menos 300 mil discos sendo fabricados por ano (pode ser que seja um pouco mais, já que ambas não soltam o total exato da sua produção – por motivos óbvios de segredo comercial). E isso é razoavelmente bom! Mas, mesmo que sejam 400 mil discos/ano, ainda é muito pouco perto dos mais de 10 milhões que foram fabricados nos EUA (e 17 milhões vendidos). Porém, nas Terras do Tio Sam existem 33 fábricas e aqui somente duas…

E agora?

A primeira questão é óbvia: se temos duas fábricas onde ambas produzem mais ou menos 150 mil discos/ano cada, quer dizer que neste ano de 2018 teremos, no mínimo, 300 mil discos “made in Brazil” tocando. E isso é uma excelente notícia, afinal, são apenas 28 países no mundo que têm o privilégio de colocar nos toca-discos de seus conterrâneos discos fabricados em solos nacionais. Perante a realidade mundial, fabricação própria é quase um luxo…

A segunda é para os artistas, gravadoras e selos, pois, já contam com mais canais para realizarem seus discos.

A terceira é que quem pensa que os preços poderão abaixar por causa da concorrência, esqueça! A demanda por novos discos é alta e as duas fábricas ainda não dão conta desta demanda. Ambas trabalham no limite de suas produções.

A quarta é uma luz maior no horizonte. Se já temos duas e elas funcionam muito bem, podem ser exemplos para novos empreendedores e, assim, nosso parque de discos vir a aumentar – principalmente se a crise brasileira começar a dar sinais de término (pelo menos torcemos para que isso aconteça). Mas, adiantamos, um maquinário novo para fabricar discos fica – no mínimo – entre 500 mil e 1 milhão de dólares para começar.

A quinta questão, mostra que temos um público ávido por discos e uma gama de artistas que querem fazer os seus. Mostra disso é que ambas as fábricas estão no limite de suas produções e na procura da expansão. Portanto, é um empreendimento lucrativo e que funciona muito bem.

A sexta, está ligada à demanda mundial. O Brasil segue essa demanda, mas está na periferia da indústria de discos. É uma situação delicada, já que importar discos é quase proibitivo e para os artistas fazerem no exterior, também é complicado (tudo por causa do dólar alto e a incidência de impostos). Foi-se o tempo que nossa indústria de discos era uma das maiores do mundo, e países como o Japão com alta procura por discos tem apenas uma fábrica, mas um consumo muito maior, pois há facilidades para a importação e maior poder de compra.

A sétima questão mostra que para resolvermos o problema da demanda dos discos que tem um público fiel e cada vez maior, só se resolve com a queda dos impostos de importação e a facilidade para que artistas, gravadoras e selos possam fazer seus discos no exterior e trazer para cá com preços competitivos e de acordo com nossa realidade. Novas fábricas com maquinário novo a pelo menos 500 mil dólares (mais de 1 milhão e meio de Reais) não é algo que acontecerá no país de uma hora para outra, assim como, achar maquinário perdido por aí em forma de sucata é uma questão de sorte e até agora não vimos algum sortudo acenando que poderá abrir uma nova indústria tupiniquim de discos. Ou seja, provavelmente ficaremos com essas duas fábricas por um bom tempo, exceto se existir alguém que esteja nos preparando uma surpresa…

Por fim, nosso maior problema: não temos indústria de toca-discos! Todos os novos toca-discos – sem exceção – vendidos no país são importados e seu preço final é exorbitantemente maior que no exterior (veja aqui nossa comparação). Nos resta resolver o problema da cadeia produtiva do vinil (que além dos discos engloba acessórios e toca-discos) que está à mercê dos impostos, do dólar alto e de leis que foram reformuladas quando houve uma substituição da tecnologia do vinil para o CD e hoje, claramente, estão defasadas e fora do contexto fonográfico atual.

Mais que dobramos nossa produção de discos, contudo, vamos continuar repletos de obstáculos nesta cadeia por muito tempo. A saída a curto e médio prazo está na criação de políticas que sejam mais favoráveis e mais atualizadas para este setor da indústria da música que mundialmente vem arrematando recordes e mostrando que está mais viva que nunca, mas, aqui anda capengando…

É minha gente, aos poucos (digamos que bem aos poucos) vamos caminhando para a “festa” internacional do vinil, todavia, precisamos de mais investimentos e pessoas empreendedoras como Michel Nath (Vinil Brasil) e João Augusto Ramos (Polysom) para darem mais vigor a este setor da música. E estes merecem uma estátua no panteão dos discos de vinil – se é que existe este lugar!

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