O mercado de vinil na pandemia e pós-pandemia e o preço do vinil e toca-discos

Nos dias 12,13 e 21 de maio deste ano de 2020, o Universo do Vinil promoveu 3 lives no seu Instagram (@universodovinil) para ajudar na compreensão sobre o mercado de discos de vinil no período inicial da pandemia e tentar compreender o futuro que viria pela frente – as lives estão disponíveis na íntegra no Instagram do UV como também no canal próprio do YouTube.

Foram convidados expoentes deste mercado nas distintas áreas que poderiam, de certa forma, abraçar os vários pontos da cadeia produtiva do vinil e assim “cercar” todos os possíveis prognósticos para este mercado no período pandêmico e após ele. Desta forma, Fred Cesquim (proprietário da loja e selo Record Collector Brasil) falou sobre lojas e selos, Michel Nath (proprietário da fábrica de discos de vinil Vinil Brasil) conversou sobre as fábricas de discos e Ariel Fagundes (editor da Revista Noize e do Noize Record Club) dialogou sobre outros projetos que envolvem o vinil, tal como o próprio Noize Record Club, um clube de discos.

Você pode assisti-las clicando aqui no Instagram e aqui no YouTube do UV

Passado exatamente 2 meses após estas conversas, conseguimos compreender que as falas dos 3 entrevistados foram bastante pontuais e mostraram a realidade do mercado e como ele vem agindo e se reafirmando neste momento. Os prognósticos apontados foram muito realistas e nos tempos de agora podemos perceber que o trio de entrevistados conseguiu ser certeiro na tentativa de prever o que poderia acontecer.

Um dos pontos cruciais onde todos foram unânimes está justamente na questão mais dolorida para o fã do vinil: o preço dos discos e, obviamente, dos toca-discos iriam subir.

Há uma reclamação generalizada no Brasil (e com toda razão) sobre os altos preços dos vinis e seus eletrônicos de áudio atualmente.

Para terem uma ideia, perguntamos a um lojista sobre como estava o preço dos discos novos no seu estabelecimento em 3 tempos distintos, início do ano, março/abril e agora – fim de julho com possibilidades de estar em agosto – e a resposta nos assustou bastante. Importados: em janeiro, R$ 120,00; meio do 1º semestre, R$ 175,00 e fim início do segundo semestre, a partir de R$ 210,00. Nacionais: início do ano, em média R$110,00 e agora, fim do primeiro semestre e início do segundo, indo para a média de R$120,00.

Os preços dos toca-discos também estão na tendência de alta e vem deste 2016. Para terem uma ideia, o toca-discos Pro-Ject Debut Carbon DC na nossa matéria que saiu em 16/10/2016, variava de R$ 3599,00  a R$ 4.299,00 (clique aqui para ler a matéria) e até a conclusão deste artigo está em R$ 5886,00 (veja o toca-discos aqui), um aumento substancial de aproximadamente 37% no preço mais alto (R$ 4.299,00) e 63,5% sobre o valor mais baixo (R$ 3599,00). 

Mas o que pode nos levar a entender sobre estes aumentos elevados nos últimos tempos, levando em consideração que a inflação acumulada entre o fim de 2016 e o meio de 2020 não chega a 11%?

A maior explicação está no elevado valor do dólar e também nas taxações (impostos) e no “pente fino” que a Receita Federal vem fazendo com as importações de discos e de toca-discos. A Receita, ultimamente, vem fazendo um trabalho muito rigoroso com as importações e só sai deste “movimento” do referido órgão federal os produtos que entram no Brasil clandestinamente. E sobre entrada clandestina não é conversa do UV e sim, caso de polícia…

Para entenderem o impacto do dólar no preço dos discos de vinil e dos toca-discos é fácil:

Um: Nas Terras Tupiniquins não existe, absolutamente, uma única fábrica de toca-discos. Todos, sem exceção, dos players de vinil vendidos no Brasil são importados. Com isso, já se percebe o impacto do dólar nos tocadores de vinil: aumentou o dólar, obviamente, o valor final do toca-discos irá subir para o consumidor.

Dois: Sobre os discos novos também é fácil perceber. No Brasil só existem duas fábricas de vinil (a Polysom e a Vinil Brasil) e ambas mal dão conta da produção nacional. Portanto, 99,99% dos discos de artistas estrangeiros são importados e todo e qualquer disco feito aqui no nosso país estará também sujeito à variação do dólar e das políticas de impostos e de importações advindas do Ministério da Economia, pois, a produção de vinil, por mais que seja realizada em fábrica nacional, tem nos seus componentes produtos importados. Assim, qualquer disco nacional ou estrangeiro sofrerá com o aumento do dólar e das referidas políticas econômicas brasileiras.

Discos usados:

Sobre os discos usados há um fenômeno engraçado e no mínimo inusual.

Pelos próprios canais de comunicação do UV, nunca recebemos tantas perguntas se compramos discos usados. Estas perguntas vêm sendo feitas regularmente e com tendência de alta desde a inauguração do UV em outubro de 2015, e agora neste período pandêmico é praticamente uma, duas ou até três mensagens diárias no nosso Facebook, Instagram ou por e-mail perguntando se compramos discos e, particularmente, essas mensagens não são de lojistas e nem de vendedores autônomos querendo nos mostrar seus produtos. São de pessoas comuns que querem vender suas coleções de vinil ou estão com eles guardados em algum local e querem desfazer dos bolachões e, assim, poderem conseguir algum dinheiro extra.

Certamente, os leitores e leitoras do UV já sabem que não somos loja e muito menos compramos discos desta forma, mas este grau de pergunta é feito diariamente e corriqueiramente a nós. E o que isso representa? Representa que há uma oferta mais abundante de discos usados para venda de acordo com nossos canais de comunicação e que as pessoas, por vários motivos que os tempos de hoje nos acomete, resolveram desfazer de seus discos. Mas isso não necessariamente quer dizer que haja uma quantidade de discos usados a mais no mercado, mas sim uma tendência observada por nós.

E o que justificaria o aumento também do valor dos discos usados? Uma das justificativas é o próprio “efeito dominó”, pois, quando um vendedor percebe que seus discos novos subiram de preço é quase um fenômeno psicológico fazer com que os outros produtos de seu portfólio subam também.

Uma outra possível justificativa é que, por incrível que pareça, foi o aumento das compras de discos.

Certamente, muitos deixaram de adquirir por causa do arrocho econômico que nos dias atuais vem fazendo sofrer um número considerável de famílias, mas outros, por estarem mais em casa, realmente de quarentena, e com o poder aquisitivo intacto e até mesmo com uns trocados a mais no bolso, já que deixaram de gastar com combustível e transportes, pararam de ir a bares, restaurantes, passeios nos shoppings, concertos musicais e etc,  tiveram mais tempo livre, grana sobrando por não gastarem nos demais divertimentos e assim passaram a investir mais nos discos e outros tipos de recreações domiciliares. Só para terem uma ideia, a Netflix nunca vendeu tanta assinatura de seu produto como nos dias atuais. E assim, os comerciantes, sejam autônomos ou não, que se adaptaram a estes tempos, usando vendas por WhatsApp ou pelas redes sociais com delivery e/ou incrementaram seu e-commerce, se deram muito bem! E nós perguntamos a alguns vendedores de discos que usaram estas novas tecnologias para vendas e entregas como foram seus negócios nestes últimos 3 meses e todos, sem exceção disseram que suas vendas aumentaram. Mas só os que se adaptaram a estes “novos tempos”. Aqueles que não seguiram as “novas regras” do comércio usando as tecnologias de comunicação, informação e entrega em casa não foram muito felizes…

Mais uma possível justificativa é que com a oferta maior, aqueles que tiveram suas economias sem modificações e acabaram por ter um dinheirinho a mais no bolso, como explicado os motivos no parágrafo acima, viram uma oferta de discos usados de títulos que provavelmente não viam a tempos e, assim, avidamente, tornaram-se compradores acima da média que tinham anteriormente e isso deu a “falsa sensação” de que a oferta estava menor que a procura.

Outra situação foi a substituição para venda do disco novo importado pelo vinil usado. Como as importações ficaram muito difíceis, vários comerciantes de discos que tinham seu foco no disco novo tiveram que jogar pesado nas vendas dos usados, pois seu carro-chefe que era o novo, passou a ser produto escasso. Desta forma, para “pagar as contas” foram obrigados e investirem mais nos usados e assim, a clientela que outrora preferia o vinil novo, por falta de opção, passou a comprar o “de segunda mão” (pelo menos o comprador usual e frequente). E este caso também está nos discos novos nacionais, pois ambas as fabricas brasileiras passaram um bom período fechadas por causa da pandemia e ainda estão com a produção numa escala menor que no passado jogando menos títulos no mercado, com isto, obviamente, os preços dos usados subiram.

Por fim, o comerciante seja de vinil novo ou usado precisava pagar suas contas nestes tempos onde se anunciava que o comprador iria sumir, assim, foi obrigado a subir o preço dos discos para sua própria subsistência, mesmo que isso fosse uma ação kamikaze, ou seja, espantasse mais ainda o comprador, porém, o que aconteceu é que o fã do vinil que podia comprar, não deixou de adquirir seus discos, situação esta que novamente forçou o valor final do vinil para cima.

Concluindo:

O aumento dos preços dos discos importados e dos toca-discos tem nome e endereço: dólar alto e políticas econômicas de impostos e aduaneiras. E o aumento dos discos usados pode ser uma das justificativas que apontamos, um conjunto delas ou até mesmos todas reunidas num fenômeno único.

O disco usado vem sofrendo não só uma mudança de foco de mercado, atingindo o comprador que usualmente preferia os novos, como também há uma tendência muito grande do aumento de vendas, pelo menos nas mãos dos que realmente estão conseguindo vencer os negócios e seus sustentos na pandemia. Todavia a pergunta que fazemos é se após este período difícil e nebuloso que passamos, os discos usados terão de volta a configuração anterior e seus preços com as lojas físicas abertas continuarão em alta ou não? Quem viver, verá!  

E para falarmos sobre esta assunto, voltamos a convidar Fred Cesquin da Record Collector Brasil para uma live sobre o “fenômeno do aumento do preço do vinil”, particularmente dos novos – Fred é comerciante de discos e dono de um importante selo que leva o nome já citado, conhecedor profundo deste mercado –  e assim, chamamos vocês novamente para um bate-papo, desta vez no Facebook do UV na próxima terça-feira, dia 28 de julho às 20h, para aprofundarmos e entendermos mais ainda a questão do preço do vinil. Esperamos vocês lá!