2020: o ano dos discos de vinil nos EUA e de problemas no Brasil

2020 foi alardeado pelos quatros cantos do mundo como o ano do vinil. O ano que os discos de vinil nos EUA venderam mais que CDs, o ano que essa mídia física obteve maior rentabilidade e, de quebra, trouxe junto o aumento das vendas das fitas cassetes, mostrando a força da música analógica. Mas será que a realidade dos EUA é também a do Brasil? O Universo do Vinil tenta desvendar esta pergunta e ao mesmo tempo apresentar os resultados do Relatório 2020 da RIAA, a poderosa associação da indústria fonográfica norte-americana.

O mercado norte-americano de discos de vinil é enorme. É o soberano do mundo. Também pudera, lá se encontra o maior número de fábricas de discos do planeta e é mundialmente o maior mercado consumidor.

No Brasil a coisa não é bem assim. Temos apenas duas fábricas e a política de importação de vinil é dificultosa. Altos impostos e o dólar alto são prejudiciais para o comércio varejista de vinil brasileiro, visto que dependemos das fábricas, selos e gravadoras internacionais para podermos ter acesso a títulos mais variados.

Nós do UV sabemos que fazer uma comparação entre o mercado dos EUA e o brasileiro é como comparar o gigante Golias com um anão, porém, trazer ambas as realidades à tona pode nos ajudar a refletir sobre o que acontece no nosso território nacional e, quem sabe, mudar o cenário.

Nos EUA

No recém publicado relatório anual da RIAA, lançado nesta última sexta-feira, 26 de fevereiro, foi divulgado que as vendas de vinil em 2020 tiveram um substancial aumento de receita, embora as vendas de CDs e downloads digitais tenham diminuído significativamente. Caso queira ler o relatório, clique aqui.

O aumento do vinil no mercado permitiu que a venda geral de mídia musical física diminuísse apenas em 0,5% em relação ao ano de 2019 e além do crescimento do vinil houve também na categoria que a RIAA chama como “outros” (compactos – 7 polegadas -, CD Singles, fitas cassetes, DVD Audio e SACD) um aumento de 24%, representando 3,1% do total de vendas das mídias físicas.

Veja o gráfico abaixo para perceber melhor:

Fonte relatório RIAA 2020

A queda nas vendas de outros produtos musicais físicos não é nenhuma surpresa dentro do contexto de crescimento maciço do streaming que cresceu 13,4% no ano passado e compõe 83% da receita total da indústria musical. Somente no último trimestre de 2019, as três grandes gravadoras norte-americanas (Universal, Sony e Warner) obtiveram uma receita de US $ 2,26 bilhões.

Os números do ano passado indicam que as pessoas estão investindo mais em suas coleções de vinil agora que passam mais tempo em casa, assim, as vendas de LPs e 45RPM cresceram 23% em relação a 2019 – apesar do fato de que a maioria das lojas de discos teve que fechar durante boa parte do ano, e mesmo quando reabriram o tráfego de pedestres caiu drasticamente por questões de segurança.

E, por isso, muitas lojas de discos postaram seu estoque online em 2020, especialmente no discogs.com (no restante do mundo e no Brasil, no Mercado Livre e venda direta por WhatsApp) para compensarem as perdas nas lojas físicas.

Discos de vinil e streaming

O aumento das vendas de vinil após sua quase morte em 2006 tem caminhado lado a lado com o aumento do streaming de música desde o início de 2010. Os downloads digitais nunca ofereceram realmente um senso de propriedade da música, por isso, os fãs que queriam ter a posse da mídia que continha seu artista preferido gravitaram para o vinil, enquanto aqueles que não se importaram com a propriedade da mídia se mantiveram nos serviços de streaming musical como o Spotify, Amazon Music ou Deezer, por exemplo.

Nos EUA o vinil agora é maior do que os CDs

Algo que não era verdade desde 1986.

As vendas de vinil representam a maior parte do mercado de produtos musicais físicos. As vendas de CDs continuam despencando quase na mesma taxa de crescimento do vinil. A outra categoria que ainda está em queda livre são os downloads digitais, como do iTunes (agora Apple Music) e Amazon AMZN -1,8%, e se continuar com estes números, o vinil deve ultrapassar os downloads até o final deste ano.

Os números da RIAA mostram que a indústria geral cresceu 9% de 2019 a 2020, para um total de US $ 12,2 bilhões. É um crescimento decente, mas embora fique aquém do crescimento de dois dígitos que o setor desfrutou desde 2016 (a receita cresceu 13% de 2018 a 2019), a desaceleração é facilmente atribuível à pandemia.

No Brasil
Discos de vinil novos fabricados no Brasil

Aqui a coisa é muito diferente. Primeiro que não temos um levantamento anual sobre as vendas de discos novos, e se tivermos será muito irrealista, visto que há uma infinidade de vinil importado sendo vendido por comerciantes do mercado informal. Segundo, que temos apenas duas fábricas e nosso maior comércio é o de vinil usado.

O ano de 2020 foi muito atípico no Brasil. A pandemia, de fato, atrapalhou bastante as fábricas brasileiras dificultando a entrega de novos títulos no mercado e, talvez, 2020 tenha sido nos últimos 4 anos, o período que menos se lançou ou relançou novos álbuns. Mas, vários problemas atingiram as fábricas e não apenas a pandemia. A alta do dólar impactou diretamente nos preços dos novos disco (lembrando que vinil é feito de plástico e este é derivado do petróleo, portanto, petróleo em alta, plástico idem), bem como, a oferta mundial diminuta de insumos para fazer vinil também atingiu em cheio o país.

Para perceber isso é fácil, ainda mais se você for assinante de um dos 3 clubes de vinil do Brasil. Todos, de uma forma ou outra, com pequenos ou grandes intervalos, atrasaram as entregas dos novos álbuns em 2020 e isso continua em 2021.

Vinil usado e discos novos fabricados no exterior

Em contrapartida, o vinil usado foi visivelmente percebido que esteve em alta e na preferência dos compradores, afinal, não tínhamos mesmo muitos títulos novos para serem adquiridos. Com lojas físicas fechadas ou não, o amante do vinil se deleitou com a compra de usados neste ano de 2020. Sem contar a alta demanda perceptível da compra de discos novos importados.

O vendedor físico de discos usados no Brasil precisou se reinventar. Passou a usar o WhatsApp, o Mercado Livre ou outro site de vendas avulsas para ofertar seus estoques, assim como, foi para o mundo online construindo e-commerces para seus serviços e, com isso, conseguiu chegar ao seu mercado consumidor conseguindo realizar suas vendas.

Os discos novos importados

Sobre os novos importados, no início da pandemia a situação ficou muito crítica. Estoques foram sumindo das lojas pela dificuldade de importação e só no final de 2020 que começaram a ser repostos. Porém, vieram com preços exorbitantes, mas nem por isso muitos deixaram de comprar.

O aumento dos preços dos importados é a junção da alta dos preços no exterior, mais a cotação do dólar e a Receita federal fazendo pente fino na importação de discos de vinil.

Resumindo, o vinil usado e os discos importados foram a “menina dos olhos” do mercado brasileiro de 2020.

Todavia, é difícil mensurar o tamanho deste varejo de usados, mas ele é bem percebível nas conversas que tivemos com vários lojistas do Brasil inteiro (você poderá entender melhor isso se assistir uma das mesas redondas que apoiamos no evento “IV Seminário Música e Vinil” de 2020. Clique aqui para assistir.

Mais jovens no mercado de vinil

Nos EUA, os fãs de vinil estão ficando mais jovens e agora compram novos lançamentos. O álbum número um de 2020 também mostra o apelo de propriedade e possibilidade de coleção: é Live at Third Man Records, uma edição limitada de uma performance acústica secreta de 2019 apenas para convidados em Nashville por Billie Eilish com seu irmão Finneas. As cópias estão sendo vendidas no Discogs por preços que começam em $ 45 e vão para o norte de $ 200.

E no Brasil o fenômeno da entrada de jovens para o mercado de discos de vinil também é um fator que é possível de ser visto a olhos nus.

O que nos espera em 2021?

No Brasil a perspectiva é que as fábricas voltem a produzir o que produziam em 2019 e até aumentem essa sua produção, porém, sabemos que para isso acontecer vamos precisar que a pandemia diminua e o poder aquisitivo do brasileiro não caia tanto.

Mas, o que temos mesmo de certeza é muita esperança e torcida!

 

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