Bob Dylan – Um Nobel

Um Nobel de literatura a um músico? Acredito que essa indagação tenha sido feita por diversas pessoas pelo mundo, não à toa, pois embora Bob Dylan não seja “apenas” um músico, é assim que a grande maioria o reconhece.

Prêmios como este muitas vezes são vistos como tendenciosos, recebem críticas de todo tipo, desde o seu real objetivo, inclusive como já fora questionado por um dos seus ganhadores, o qual recusou-se a recebê-lo, passando pelos indicados e a quem os seleciona, chegando ao escolhido e final merecedor.

Afastando-se dessa problemática, acreditando na nobreza do título, penso que nenhum dos seus ganhadores tenha se preocupado quando da criação de suas obras com este objetivo. O verdadeiro artista, seja escritor, físico, músico, ou qualquer outro iluminado, desenvolveu sua obra pela sua natureza, sua necessidade e vontade, sem preocupar-se com reconhecimento, mas tão somente na sua ideologia e seu resultado.

Para aqueles que pouco sabiam sobre “os outros” Bob Dylan, deve ter sido realmente um choque. Para mim foi uma grata surpresa. Afinal, pelo pouco que sei sobre Prêmio Nobel de Literatura, apenas ilustres escritores, na sua grande maioria europeus, foram agraciados com essa honra, sem falar na “bolada” em dinheiro. É justamente essa a questão, por que a música de Bob Dylan seria merecedora de um Nobel de literatura? A resposta não está na música, mas nas suas letras. Dylan foi, e ainda é, um grande artista, músico, pintor, compositor, poeta.

Em seu primeiro disco, gravado em 1961 e lançado no ano seguinte, apenas duas músicas eram autorais, porém, durante esse período ele escrevia sem parar até lançar em 1963 o segundo álbum, “The Freewheelin’ Bob Dylan”, este com todas as músicas autorais, escritas em forma de protesto ao governo e à sociedade da época, embora ele mesmo negasse isso, mas assim eram reconhecidas e interpretadas por todos. Duas delas, inclusive, tornaram-se hinos e levantaram bandeiras por toda a década de sessenta e perduram até os dias atuais, “Blowin’ in the Wind” e “A Hard Rains A-Gonna Fall”, as quais são muitas vezes interpretadas de forma totalmente fora do contexto.

A forma como ele escrevia fugia do tradicional, era um fruto desconhecido de sabor amargo que subitamente conquistou toda a juventude, foi inovador e polêmico numa sociedade altamente conservadora e tradicional.

A música de Bob Dylan é apenas uma carapaça para suas letras. São suas letras, seus contos, sua poesia que o levaram ao reconhecimento mundial, inclusive por aqueles que mais entendem de literatura. Ler Bob Dylan é mergulhar na história americana contada pela ótica de quem viveu no underground, lutou pelos direitos civis e sociais. Sua obra sempre foi admirada e tardou, mas agora foi reconhecida e elevada a outro patamar, sobrepujando autores notadamente geniais.

Assim é o tempo, assim é a vida, às vezes esperamos anos por algo e inusitadamente aquilo acontece, como diz o próprio autor, “quantas estradas um homem deve percorrer até ser chamado de homem”?

O autor:

valdeck

Valdeck Junior é um sergipano apaixonado por música e surf. Nasceu e se criou em Aracaju, mas morou um tempo em Recife. Formado em Gestão de Empreendimentos Turísticos pela UNIT, atualmente cursando Direito, é servidor público do Poder Judiciário. Coleciona discos desde muito cedo, encantou-se pelos “long plays” ainda criança. Sempre curtiu rock e suas vertentes, principalmente os artistas mais antigos, a música da década de setenta. Tem mania de “garimpar”, descobrir aquilo que fora esquecido, resgatar preciosidades perdidas e buscar pérolas novas, ainda não apreciadas e difundidas pela maioria. É um jovem senhor bastante amigável, aberto a novas ideias e desafios, gosta de escrever e compartilhar suas experiências com quem se interessar. [email protected]