Jongui: Escutamos e gostamos!

Elétrico Fio Que Teço – Jongui

por Lucas Santtana

 

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Elétrico Fio Que Teço é o encontro entre batuque, poesia, cordas, sopros, batidas e sintetizadores eletrônicos. Escuta, reflexão, concentração e sensibilidade para desbravar novos caminhos. Sem gênero, música de invenção. E até.

O primeiro disco é sempre um desafio. Não que Jongui esteja começando agora, muito pelo contrário, esse gaúcho radicado no Rio de Janeiro já fomentou a cena independente com sua gravadora Net records, tocou com Lulu Santos, Ramiro Musotto, Daúde, Jorge Mautner, Jards Macalé, Vulgue Tostoi, além de ter produzido discos de Lucas Santtana, Zeca Baleiro, Rita Benneditto, Raquel Coutinho, entre outros.

Como somos o acúmulo do tempo, todas essas vivências de uma maneira ou de outra estão presentes em seu primeiro álbum Elétrico Fio Que Teço, em que ele não só concebeu mas produziu e mixou. Mesmo assim fica a indagação, como soar original em 2017?  Quando a impressão que se tem é que tudo já foi feito e refeito?

Jongui responde bem logo na primeira faixa, E Até:  – “saudade de querer fazer nem sei o que/ vontade de algo mais/nem sei em que cais/ em algum lugar pra lá e até/impreciso desejo pra atravessar/ e as coisas que há.”

Em várias letras do álbum a incerteza é o personagem mais presente, mas não como dúvida de movimento e sim como um desejo de estar à deriva. Como bem disse Tom Zé: “tô iluminado para poder cegar, tô ficando cego para poder guiar”.  Não se trata de um personagem passivo e assustado, mas elétrico e instigado, disposto e sedento pelos desafios.

Um dos maiores desafios em um disco de cantor é sem dúvida a voz. Ainda mais para quem está se aventurando pela primeira vez nessa seara. Nesse sentido foi muito inteligente a maneira como Jongui encontrou um lugar para a sua voz no disco. Enquanto os arranjos de sopros e cordas geram harmonias sofisticadas e belos contrapontos, os sintetizadores, kalimbas, berimbaus e marimba de vidro trazem riqueza de timbres e texturas, deixando a forte cozinha de bateria, sintbass e atabaques dando conta do caldo rítmico quando ele precisa se manifestar. A voz de Jongui amarra tudo isso, como um fio que atravessa e tece um recitativo de poesia. Mais do que cantar as suas letras, Jongui as declama, de maneira suave, enfática ou berrada, fazendo com que elas digam o que vieram para dizer. Muito mais do que se as colocasse em maneirismos vocais.

De Tom Zé para J. L. Borges, “ninguém é nada sozinho”. E Jongui convocou um time de peso para navegar por mares nunca dantes navegados. Músicos de variadas linguagens e vários cantos do mundo se encontram no trabalho. Brasileiros gaúchos, mineiros, fluminenses do interior junto a canadense, portuguesa e sueco. Híbrido no som – erudito e popular – e nas origens. Raquel Reis e Martina Stroher nos cellos, Aquiles Moraes no trompete e flugel, Thiago Osório no eufônio e trombone e Alessandro Jeremias na trompa formam o bloco orquestral da embarcação, regidos pelos arranjos cinematográficos de David Arcus, Fernando Morello e do próprio Jongui.  Sebastian Notini e Léo Souza evocam a ancestralidade rítmica do transe, Lucas Vasconcellos contribui com sint na faixa ´Tua Língua´, e cabe a Jongui, além de cantar, trazer toda uma gama de sonoridades e arquiteturas sonoras com sintetizadores, bujão, chocalhos, atabaques, bitbox, berimbaus, bateria e mpc.

Mas a turma não para por aí. Muitos nomes das artes plásticas povoam todo o encarte do disco e reafirmam o real interesse de Jongui em suas escolhas no campo da música. A arte gráfica do trabalho é o corpo elétrico das ressonâncias entre linguagens artísticas. O ensaio fotográfico da capa é inspirado no artista Francis Bacon.

Querer não é a faixa que fecha o elétrico fio que Jongui teceu, mas traz versos que o definem: – “Sei que não quero futuro velho para carregar, sou o que estou e pelo que estou, eu vou pra lá”.

Elétrico Fio Que Teço é sem dúvida um disco de travessia. Estética, pessoal, de vida, um organismo vivo ecoando no oco da zumbilândia.