A Metamorfose de Larissa: Do coral da igreja ao renascimento ancestral de Anitta
A funkeira não perde a chance de dar o que falar. Quem viu a Anitta beijando a atriz Isis Valverde no seu último clipe sabe bem que ela adora os holofotes. A verdade é que essa atitude não nasceu ontem. Desde que era apenas a Larissa de Macedo Machado, ela já fazia caras e bocas, apostava em looks diferentões e não tinha o menor pudor em atrair os olhares de quem passasse. A trajetória começou cedo, aos oito anos, soltando a voz no coral da Igreja Santa Luzia, no Rio de Janeiro. De lá pra cá, a menina cresceu, o visual mudou de forma radical – um misto do tempo passando com uma boa ajudinha das plásticas –, e aquela garota audaciosa se transformou numa máquina de hits e polêmicas.
Mas depois de dominar as paradas globais batendo ponto no funk e no pop urbano, Anitta resolveu virar a chave. O seu novo disco, EQUILIBRIVM, prova que ela decidiu mergulhar fundo nas próprias raízes. Deixando de lado a casca puramente plástica e comercial, a artista abraçou uma jornada de cura, ancestralidade e fé. Esse projeto, que reverencia com força os ritmos tradicionais brasileiros, encontrou sua voz definitiva numa série de capítulos visuais e acaba de ser selado com a estreia de Renascimento, lançado no dia 8 de maio. É o encerramento do ciclo mais íntimo e espiritual da carreira dela, um respiro que os fãs já aguardavam com ansiedade.
O desfecho visual é um curta de sete minutos que costura três faixas essenciais: “Ternura”, “Bemba” e “Caminhador”. É fascinante observar como a cantora articula essa narrativa, usando a arte quase como uma oferenda. A ancestralidade vira o combustível principal da força que ela ostenta hoje. E ela não trilhou esse caminho sozinha. Com parcerias cirúrgicas com Liniker, Melly e Luedji Luna, Anitta exalta de peito aberto a cultura afro-brasileira e a sua própria base religiosa.
A estrutura de Renascimento se desenrola em três atos que abordam o processo de cura por ângulos diferentes, sempre esbarrando o divino no terreno. A coisa começa pelo amor e o sagrado em “Ternura”, cantada com Melly. Bebendo direto da inspiração em Oxum, a deusa das águas doces, a câmera usa a natureza e os rios como cenário para traduzir uma certa maciez interna e aquele amparo espiritual necessário. Logo em seguida, a herança baiana toma a frente com “Bemba”, ao lado de Luedji Luna. É uma homenagem visceral às tradições afro-brasileiras, misturando a roda de capoeira com a culinária da Bahia para destacar um legado geracional que pulsa a África dentro do Brasil. Para fechar, a parada fica bem mais intimista com “Caminhador”, com Liniker. A cantora volta lá atrás, acessando as memórias da própria infância – num claro aceno à pequena Larissa – para retratar a resiliência e a autoconfiança de quem sabe o peso dos próprios passos na vida.
Quando você olha de longe, percebe que o projeto EQUILIBRIVM foi montado como um quebra-cabeça de cultura e fé dividido em quatro estágios muito bem definidos. Tudo começa no Capítulo I com o “Despacho” (na faixa “Desgraça”), emenda na celebração de “Fé e Festa” (Capítulo II, com “Meia Noite”), consagra a força feminina em “Deus Mãe” (Capítulo III, ao som de “Mandinga” e “Nanã”) e, finalmente, aterra nesse “Renascimento”. Mesmo que o disco traga colaborações explosivas com gigantes da indústria feito Shakira em “Choka Choka”, o verdadeiro trunfo da obra está na densidade da mensagem. É, no fim das contas, o testamento de uma artista que, no meio do furacão de ser uma estrela pop mundial, achou o eixo exato que a conecta de volta ao chão de onde veio.